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Verdades Provisorias

Anseios Cripticos


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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

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Livro em português
Brochura
 - 14 x 21 cm 1ª Edição - 2003

208 pág.
Saiu na Imprensa:

Jornal do Brasil  /   Data: 10/7/2004
Intervenção crítica de Nelson de Oliveira
Organizador das coletâneas que mapearam Geração 90 põe o dedo na ferida literária

João Cezar de Castro Rocha

[Verdades provisórias]: livro cujo título é antes uma armadilha. E, no seu ensaio mais irreverente, Nelson de Oliveira adverte com bom humor o eventual resenhista: ''Nos suplementos literários ninguém fala das capas, das orelhas, das lombadas''. O ensaio apropriadamente se intitula ''Apologia dos miúdos de frango, digo, de livro''. Começo, então, mencionando a capa, a orelha, a lombada, inclusive a quarta capa.

A capa e a lombada prometem [Verdades provisórias]. Assim mesmo: o caráter temporário da(s) verdade(s) é evidenciado pela colocação do título do livro entre colchetes. Já a folha de rosto parece confundir o leitor, pois anuncia [Verdades geométricas]. A adjetivação cética da ''verdade'' prossegue em todas as páginas ímpares do volume. Acompanhemos o exercício. As verdades se revelam ''polifônicas'', ''abruptas'', ''barrocas'', ''digestivas'', ''garimpadas'', ''jornalísticas'', etc. E assim sucessivamente até os costumeiros dados biográficos na última página, mas que agora oferecem [verdades patológicas]. Entre colchetes, claro.

Tal suspensão da verdade somente não é fenomenológica porque Nelson de Oliveira está interessado em discutir valores, a fim de intervir na cena contemporânea. Neste afã encontra-se a força de seus ensaios críticos. Entretanto, como em geral ocorre, aí também reside o [possível] limite de seu projeto. Porém, antes de identificar limites, deve-se destacar a relevância das discussões propostas em [Verdades provisórias].

Por que não fazê-lo através tanto da quarta capa quanto da orelha, assinada por Fernando Marques? Aquela reproduz uma passagem desta, na qual se compara o esforço do autor ao legado de Mário de Andrade: ''Nelson de Oliveira nos convida a refletir (...), na militância bem-humorada que o caracteriza e o torna trezentos, trezentos e cinqüenta''. Os célebres versos deveriam ser reconhecidos de imediato. Mas, como nunca se sabe, dois retratos do autor de Macunaíma são reproduzidos no canto esquerdo da quarta capa, talvez à guisa de memorando, auxiliando o leitor a recordar o conhecido poema que abre o livro Remate de males, ''Eu sou trezentos...''. De fato, a inesperada associação entre Nelson de Oliveira e Mário de Andrade revela em profundidade o projeto subjacente às verdades provisórias do autor, entre outros, de O filho do crucificado, coletânea de contos recentemente traduzida para o espanhol.

Ora, qual o sentido da associação? Como propor o paralelo entre autor ainda jovem e autêntico ícone da cultura brasileira? Numa pergunta que vai direito ao ponto: como sobreviver a tal comparação?

As preocupações de Nelson de Oliveira fornecem uma resposta. O simples título da introdução, ''A crise das verdades na era pós-Hiroshima'', sintetiza seu propósito. No caso, reunir ''textos indiretamente ligados à questão das verdades absolutas, principalmente no plano da literatura brasileira''. O objetivo da reunião é claro: ''questionar a validade dos autores canonizados''. Ora, trata-se do esforço [legítimo]de abrir espaço para novos autores; espaço esse que se revigora com a dessacralização de nomes consagrados. Após a introdução, três seções levam adiante o propósito.

A primeira delas, nomeada no sumário ''O Brasil em brasas'', mas, na página correspondente, denominada ''o braseiro em obras'', aproxima cinco ensaios que lidam com diferentes formas de legitimação da escrita ou de canonização do escritor. Como a crítica de rodapé noticia os livros recentes? Quais os critérios da crítica universitária para privilegiar um autor? Como equilibrar a relação do gramático com o escritor? Quais as estratégias que asseguram o êxito ou, pelo contrário, determinam o fracasso das revistas literárias? Como estimular a tradução de obras ficcionais da literatura brasileira contemporânea que não sejam ''os romances entupidos de anedotas exóticas e pitorescas, sobre traficantes, favelados, índios, pais-de-santo, bruxos, sambistas e prostitutas''? A recusa da facilidade dessa fórmula supõe ''que a nossa inventividade literária vibra na mesma freqüência da inventividade do resto do mundo''.

A segunda seção, em homenagem a Paulo Leminski, é chamada no sumário ''Anseios crípticos'', mas, como o leitor já suspeita, na página correspondente, é rebatizada ''ensaios diacríticos''. Com exceção do bem-humorado ''Apologia dos miúdos de frango, digo, de livro'', os outros três ensaios apresentam as horas de leitura de Nelson de Oliveira, tanto as consagradas à literatura brasileira, quanto as dedicadas à literatura dita universal. Em alguma medida, o leitor encontra nesses exercícios o romance de formação do autor, o roteiro de aprendizagem do ofício.

Por fim, a última seção, nomeada no sumário ''Certezas demais'', na página correspondente é modificada de novo e passa a chamar-se ''incertezas de menos''. Em três textos, o autor discute primordialmente o conceito de geração. De um lado, justifica o conceito por ele lançado através de duas antologias - Geração 90: manuscritos de computador e Geração 90: os transgressores. De outro lado, nuança as certezas que constituem o que denominamos ''época histórica''. O autor, mais uma vez, explicita seu propósito: o desejo nada obscuro [e legítimo]de conquistar o que Pierre Bourdieu chamou ''capital cultural''. Nelson de Oliveira deliberadamente traduz o conceito sem diplomacia: ''Não conheço escritor, genial ou medíocre, que não esteja em busca de visibilidade''. O caráter absoluto da afirmação é impertinente num autor que defende verdades provisórias. Entretanto, propor questões incômodas é o mérito maior do ensaio.

Hora, portanto, de retornar à pergunta acima enunciada: qual o sentido da associação entre o autor de Paulicéia desvairada e o de Subsolo infinito? Nelson de Oliveira responde: ''Todo esse movimento é sinal de vida literária, de sangue correndo no corpo. Tudo isso bate de frente com a literatura de gabinete, voltada apenas para o cânone e distante do corre-corre do cotidiano'' .

Isto é, assim como os anos de 1920 assistiram à transformação de valores na cultura brasileira, logo, ao surgimento de autores [ainda]não canonizados, a dinâmica das últimas duas décadas teria estimulado a revisão de certezas e, em conseqüência, desenhado um novo panorama da literatura brasileira. De igual modo, assim como Mário de Andrade desempenhou o papel fundamental de elemento catalisador das possibilidades do seu tempo, as reflexões de Nelson de Oliveira procuram trazer à superfície, ou seja, ao debate, os ventos de mudança do cenário contemporâneo.

Daí sua preocupação com a imprensa cultural, as revistas literárias, o mercado editorial, a universidade como o centro atual de estabelecimento de cânone, a ausência de investimentos que tornem a literatura brasileira visível no plano internacional para além do gueto do país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Refletir sobre os ''miúdos de livro'' significa discutir as condições presentes da vida literária.

O gesto é necessário, pois Nelson de Oliveira coloca o dedo na ferida, que não pára de sangrar. Apesar de avanços inegáveis, o sistema literário brasileiro ainda precisa superar problemas estruturais básicos. Por exemplo, a tiragem limitada das edições encarece o produto. A distribuição dos livros permanece verdadeiro nó górdio. Os governos [des]cuidam de iniciativas de estímulo à leitura e de formação de bibliotecas como se tais áreas não constituíssem prioridade. Por fim, como ocorre desde o século 19, para pagar as contas no fim do mês, a maioria dos escritores continua militando na imprensa ou permanece trabalhando em empregos públicos. Ou seja, para o escritor que não conta ''com uma polpuda herança que lhe permita escrever em tempo integral'', chegou a hora de unir-se a outros e, ''se mais e mais autores comprarem essa briga, nosso movimento, mesmo feito assim improvisadamente, vai ficar muito parecido com as ações guerrilheiras''.

[Verdades provisórias], portanto, parece anunciar um modelo alternativo de vida literária, não mais compreendida como acordo entre amigos, como simples e monótona formação de capelinhas e cenáculos. Pelo contrário, Nelson de Oliveira pretende discutir as estratégias que definem as posições de poder no campo literário do Brasil contemporâneo. Deste modo, seus ensaios convidam a uma reflexão realmente nova sobre a vida literária.

Porém, o possível impasse do projeto foi estudado com grande penetração na tese de doutorado de Marcos Antonio de Moraes, Orgulho de jamais aconselhar (A epistolografia de Mário de Andrade e seu projeto pedagógico), infelizmente ainda inédita. Tal engajamento com as condições de produção da literatura e com sua circulação, pode ameaçar precisamente o lado criativo do escritor. No caso de Mário de Andrade, a escolha envolveu nível elevado de auto-sacrifício, ou, pelo menos, de sacrifício parcial da obra criativa em favor de rigoroso trabalho de formação social, cujo alcance ainda hoje ajuda a definir a cultura brasileira. A aposta de Mário não deixou de ser pascaliana, mas muito poucos estavam [e estão]aparelhados como ele para enfrentar semelhante desafio, e um número ainda menor pode esperar o êxito que a posteridade lhe reservou.

Numa quarta capa imaginária, portanto, em lugar dos versos de Mário de Andrade, poderíamos inscrever os versos do poema ''Quase'', de Mário de Sá Carneiro: ''Um pouco mais de sol - eu era brasa, / Um pouco mais de azul - eu era além / Para atingir, faltou-me um golpe de asa... / Se ao menos eu permanecesse aquém...''.Se não me equivoco, na ficção e na crítica, o vigor do trabalho futuro de Nelson de Oliveira dependerá do difícil equilíbrio entre a vida literária e a própria literatura - no fio da navalha entre o quase e a realização das possibilidades evidenciadas em [Verdades provisórias].

Sobre o autor:

OLIVEIRA, NELSON DE
Nasceu em Guaíra, São Paulo, em 1966. Formado em comunicação visual, atualmente é diretor de arte da Callis Editora. Em 1995 seu livro Naquela época tínhamos um gato recebeu o Prêmio Casa de las Americas. Obras publicadas: Os saltitantes seres da lua. Rio de Janeiro, 1997. Quem é quem nesse vaivém? São Paulo, 1998. Treze. São Paulo, 1999.


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