Não Editora lança antologia que valoriza sotaques e peculiaridades locais da língua portuguesa
PRICILA MONTANDON
As nuanças da literatura independem da ortografia. Podem matar hífens e exterminar tremas, mas nunca um acordo ortográfico eliminaria os sotaques de cada escritor, por mais que escrevam na mesma língua.
É sob essa ótica que se organiza Desacordo Ortográfico (Não Editora), antologia de textos de autores brasileiros, africanos e portugueses que busca valorizar a diferença da língua portuguesa.
A obra, organizada por Reginaldo Pujol Filho e que será lançada nesta sexta, às 19h, no Complexo Master (Praça Garibaldi, 46), não pretende discutir politicamente o acordo ortográfico recém-adotado pelo Brasil. A intenção é mostrar a pluralidade da língua, uma provocação ao que pretende o acordo: unificar o português nos oito países lusófonos (Brasil, Portugal, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Timor Leste).
A ideia do livro surgiu durante as discussões sobre o acordo, em 2007, quando Pujol, incomodado com a ideia da língua unificada, quis provar que a literatura vive do “múltiplo trabalho da forma”. Ele então partiu em busca de autores dos quais já gostava, encontrou outros que não conhecia bem, e a resposta foi unânime:
– Todos ficaram muito entusiasmados com a ideia. A literatura tem que espantar, incomodar as pessoas. Mas não entramos no mérito de discutir o acordo – diz Pujol.
Se um brasileiro sente estranheza ao ler um autor angolano, ao perceber sinais locais no texto e palavras desconhecidas, a literatura estaria provocando emoção e cumprindo seu papel. Ao mesmo tempo, dada a autonomia da literatura, um acordo ortográfico não ameaçaria sua pluralidade. Pujol concorda:
– O acordo não tem esse poder de unificar. Se observarmos na prática, no falar diário da pessoas, mexe muito pouco. Angola vai continuar com suas influências, nós gaúchos com as nossas, e por aí vai.
Desacordo Ortográfico lembra como pode ser prazeroso ler um texto em sua língua materna escrita de forma diferente. A materialização dessa estranheza pode também ser percebida no blog do livro (www.desacordo-ortografico.blogspot.com), com vídeos de autores lendo textos de outros autores com seus sotaques.
Nas páginas de Desacordo... estão reunidos escritores como Luis Fernando Verissimo, Pepetela, Luandino Vieira e Altair Martins, há textos antigos e novos, e obedecer à nova ortografia ou não nem entrou em discussão.
O livro custa R$ 27, mas será vendido a R$ 22 no lançamento.
Trechos
Luandino Vieira, português que se mudou para Angola aos três anos
“NOSSA MÃE
ardia na fogueira, eu não estava lá. As formigas desertaram paus e lenhas, vieram m’avisar. Feiticeira, a acusação babada na boca do bode. Todos os chamados, escolhidos. Fui, era novembro, fazia frio. Mulôji a Kolombolo enfeitiçou seu penacho de ndua, cinzento virou azul no fogueiro fumo, diadema de penas inocentava.”
Patrícia Portela, de Portugal
“O Espaço era uma ilusão óptica,
e a vida, um processo de lento de combustão.
Eu olhava para ti e tu olhavas para mim
as partículas do teu olhar vinham na minha direcção e o
vento que provocavam
criava uma rede de veias e artérias,
uma auto-estrada de linhas sanguíneas indefinidas que
me conduzia até os pulmões.”
André Felipe Pontes Czarnobai, o Cardoso, de Porto Alegre
“Agora já faz um tempo que NÃO me acontece, mas houve uma ÉPOCA em que era bem FREQUENTE acordar pela manhã e, enquanto PERFOMAVA a tradicional CONFERÊNCIA da GLANDE durante o MIJÃO matutino primordial, encontrar um LONGO fio de cabelo enroscado no PESCOÇO do PAU.”
Desacordo ortográfico
Antologia. Não Editora, 208 páginas, R$ 27.