Dois livros brasileiros são essenciais para o entendimento de um tipo de produção audiovisual que não está submissa às regras da balança comercial. Um é
Cinema de invenção, bíblia de
Jairo Ferreira (1945-2003), diretor de
Guru e os guris e
O vampiro da cinemateca, sobre a estética experimental da marginália brazuca (tipo Sganzerla, Bressane, Luiz Rosemberg Filho). O outro é
Revolução do Cinema Novo, onde
Glauber documenta o que em sua anárquica prosa chamar-se-ia "hystórya". A "hystéryka hystórya" de um tipo de produção comprometida com a transgressão.
Bastante lúcido em uma dialética que ora ou outra escorrega para a sofística, Glauber contempla a trajetória do cinemanovismo que varreu o mundo a partir dos anos 60, contagiando franceses (
Godard,
Truffaut), italianos (
Bertolucci, Bellochio) etc, com propostas de revisão cultural. E fala com a visão de um teórico que conheceu o movimento em fase embrionária. Daí as chances de sobra que tem para provocar e enaltecer.
Mais válido do que nunca nestes tempos de
Cidade de Deus,
Contra todos e congêneres menos gloriosos, Eztetyka da fome ainda é o biscoito fino da ensaística glauberiana, pelo esforço de manter atual o conceito de terceiromundismo como vetor de equilíbrio para o neo-imperialismo. Cinema-verdade é outro texto bastante bem-vindo no momento do
boom dos documentários, pela avaliação do cineasta para o colega
Jean Rouch, morto ano passado: ''Não é propriamente um cineasta. É sobretudo um homem interessado em antropologia e sociologia (...) que usa o cinema como instrumento''.
Ao destilar sua fúria, sem temperança, Glauber põe pingos no idiossincrático projeto de um cinema industrial, com lugar para a autoralidade.