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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
- 14 x 21 cm
1ª Edição
- 2001
176 pág.
O jornalista Nelson de Oliveira compôs seis intrigantes narrativas (cinco contos e uma novela homônima), cujo tema vem assombrando a humanidade desde sempre - o fim do mundo. Indo desde um intercurso sexual com Deus até um inacreditável suicídio coletivo, as situações envolvem o leitor da primeira à última linha.
Saiu na Imprensa:
Jornal da Tarde /
Data: 20/10/2001 Em linguagem coloquial, contos de humor, tensão e mistério
O novo livro de Nelson de Oliveira não tem nada de mágico ou profético: seu grande achado é o de reunir, em textos muito diferentes e criativos, o nosso desacerto diário
Por Ricardo Lísias
Não serão poucos os resenhistas interessados em apresentar o novo livro de Nelson de Oliveira, O Filho Crucificado (Ateliê Editorial), que certamente escorregarão em uma das muitas armadilhas escondidas, aqui e ali, no interior dos textos. Os mais afoitos, amparados por uma leitura rápida dos outros livros do autor, logo no primeiro instante vão classificar os contos como herdeiros do famoso, e muitas vezes desagradável, realismo fantástico.
Naturalmente, o nome de Murilo Rubião, acusado injustamente de ser pai de uma prole enorme, servirá para dar apoio à constatação. Quem precisar sustentá-la poderá fazer uso, e abuso, das citações a nomes e passagens bíblicas e dos trechos em latim – o latim da Vulgata, é bom que se diga! – com que o autor costura as diversas e inesperadas reviravoltas de seus contos. No entanto, atrás de um caminho que passe longe do óbvio e pouco atraente casal religião-realismo fantástico, parece-me mais interessante tentar desvendar os procedimentos artísticos que estão por trás de O Filho do Crucificado. Composição esmiuçada, então talvez seja possível enxergar além da poeira e do caos instalados em praticamente todos os contos do volume.
Ainda que sejam diferentes na temática e nos procedimentos narrativos, as histórias têm em comum, umas mais outras menos, situações de conflito que, acumuladas, denunciam a fragilidade dos laços, normalmente familiares, que unem esta e aquela personagem. Ou é a criança que perdeu a mãe em meio a um bombardeio, ou o homem que revela à esposa o ódio pelo irmão adotivo; são tipos sociais que conversam enquanto esperam o chão, depois de se atirar dos diversos andares de um edifício, ou passageiros de um ônibus que ouvem, entre espantados e indiferentes, profecias apocalípticas.
Para que fios já tão tênues não se rompam, as situações vão se sucedendo normalmente em estados de crescente mistério ou tensão. Aqui, preciso parar um instante para justificar a abertura de meu texto e, prudentemente, encaminhar a conclusão. É justamente manejando ora a tensão, ora o mistério, e não raro ambos, que a habilidade do autor de O Filho do Crucificado se revela.
Ao descrever um mundo visivelmente em desconcerto, onde estádios de futebol desaparecem e um casal recebe, a contragosto, injeções que aumentam e diminuem a libido, o autor alia aos já citados elementos de tensão e mistério doses, às vezes cavalares, de humor. Não pode, portanto, ser comparado ao mundo sombrio do Depeupleur, de Samuel Beckett, nem à sufocante arquitetura do Castelo kafkiano.
Talvez o exemplo mais consistente disso esteja no conto “Quantos?”. Composto, não de forma tradicional naturalmente, quase todo à maneira de um diálogo, o texto apresenta a conversa de duas mulheres em que uma delas, mais séria e profissional, ouve a descrição da vida sexual da outra. O que espanta não é a revelação do adultério, coisa já tão comum, nem mesmo a confissão de que a mulher, bastante animada, deitara-se com todos os homens do bairro.
Aliás, a presença de testemunhas, mesmo quando membros da família, também é algo encarado com naturalidade. O diálogo só toma ares de estranheza quando a mulher revela, sem grandes constrangimentos, que não só dividiu a cama com anjos e querubins – ou melhor, com toda a população celestial! – como que atingiu o orgasmo acompanhada pelo Criador em pessoa. Sem que o diálogo conclua se tudo não passou de alucinação ou se, de fato, a felizarda deitou-se mesmo com todas as divindades, o leitor descobre que a conversa faz parte de um programa de televisão, destes tão em moda atualmente, em que as pessoas transformam suas intimidades, as mais particulares, em matéria de espetáculo.
Acredito que, a partir daqui, já tenho elementos para recolher os diversos alicerces do livro: momentos de estranheza, poucas vezes resolvidos e quase sempre tensos ou misteriosos, são tratados por meio de uma linguagem coloquial, às vezes um tanto infantilizada, outras vezes propositalmente truncada, e de um humor de grosso calibre. O que não significa que o texto seja ingênuo ou despido de profundidade; não, as bruxas medievais, os desacertos familiares, o casamento de duas crianças em meio a destroços de guerra, tudo reflete a principal matéria com que Nelson de Oliveira apresenta seu apocalipse: o caos.
Procedimento, contudo, que não o torna um autor isolado no contexto literário do Brasil contemporâneo: Luiz Ruffato, por um lado, investiga psicologias para constatar falências sociais; Marcelo Mirisola, por outro, denuncia o tempo inteiro a hipocrisia de nossa classe média, e Evandro Affonso Ferreira, por fim, minimiza a dimensão do conto para ressaltar angústias enormes.
Se consegui realizar bem o meu trabalho de resenhista, o leitor terá entendido que o novo livro de Nelson de Oliveira não tem nada de mágico ou profético. Pelo contrário, seu grande achado é o de reunir, em textos muito diferentes e criativos, o nosso desacerto diário. Quanto ao resto, o apocalipse, acho que o leitor não precisará ir muito longe para encontrá-lo: nossas misérias já viraram espetáculo e, pior, estamos rindo delas. Deve ser porque a sociedade é alegre, as pessoas são felizes. Ao menos nós, que lemos jornal e não estamos na cruz. Por enquanto.
Sobre o autor:
OLIVEIRA, NELSON DE Nasceu em Guaíra, São Paulo, em 1966. Formado em comunicação visual, atualmente é diretor de arte da Callis Editora. Em 1995 seu livro Naquela época tínhamos um gato recebeu o Prêmio Casa de las Americas. Obras publicadas: Os saltitantes seres da lua. Rio de Janeiro, 1997. Quem é quem nesse vaivém? São Paulo, 1998.
Treze. São Paulo, 1999.
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