Henry-Pierre Jeudy denuncia, no apelo à estetização, o desejo de tapear a finitude.
Nízia Villaça
Os processos de subjetivação na contemporaneidade têm encontrado no corpo um lugar onde as discussões se sucedem e os discursos proliferam. O corpo está em foco, encenado como baluarte da resistência aos processos de desmaterialização e metamorfose propiciados pela ciência e pela técnica, ou investido de novas simbólicas que privilegiam sua desconstrução em campos de força, sua perda de organicidade, sua heterogênese. Os limites de ambas as tendências são discutíveis e podem incorrer num neoludismo-reacionário ou num neo-iluminismo tecnológico. Uma trama de discursos é tecida. A ciência, a arte e a filosofia, depois de oferecerem escritas que iam em direção da clássica ordem especular, investem na imediatez dos afetos dados como anteriores à representação. Grau zero de representação?
Henri-Pierre Jeudy, sociólogo e ficcionista, oferece-nos em seus livros interessante leitura sobre as representações corporais, buscando efetuar uma mise en abyme de tais processos, suas recorrências e estereotipias. Em
Le corps et ses stéréotypes, obra de 2001 ainda não traduzida para o português, comentava o angustiante hiato entre o que é experimentado corporalmente e o que conseguimos exprimir. Só o estereótipo, para o autor, dá a nós a certeza de uma significação compreensível pelos outros, mesmo que com a perda da singularidade de nossos sentimentos. Em última instância, aposta no jogo com os estereótipos e sua estranha plasticidade entre o limite e o desafio.
Em
O corpo como objeto de arte, agora publicado no Brasil, Henri-Pierre desenvolve a questão da estereotipia, sublinhando a recorrência do recurso às idealizações artísticas para a representação corporal. Dialogando com a fenomenologia de Merleau-Ponty, com o corpo niestzchiano ou o enredo lacaniano entre imaginário e simbólico, afirma que nossas imagens corporais são percebidas primeiramente de forma fragmentária e onírica, sendo, apenas,
a posteriori, organizadas numa espécie de discurso secundário.
Irônico, o autor denuncia, no apelo à estetização, o desejo de tapear a finitude e a degenerescência do humano. A busca de aperfeiçoamento do corpo, tão exacerbada no contemporâneo pelas intervenções cirúrgicas e todo tipo de próteses tecnológicas, não atestaria a tendência do homem para transformar o corpo em objeto de arte? Paradoxalmente, contrapõe o autor, que na perenidade e intocabilidade da arte clássica, bem como na fotografia, a procura da sublimação remete à figura imóvel da morte. Caminhamos de todo jeito em direção ao inevitável, ao fatal que nos constitui no embate entre Eros e Tanatos; a arte, a filosofia ou a tecnologia, com suas astúcias, não são capazes de inventar o que o corpo não pode.
Na sucessão das representações corporais por ele analisada, lançando mão, seja de gestos cotidianos, seja de registros no campo da arte literária ou plástica, o estereótipo retorna sempre e assombra qualquer ilusão de perenidade ou singularidade. A pele, o espelho, a moldura e todos os recursos de enquadramento são desconstruídos como ilusões na busca da unidade.
Foto-grafados diria Lacan.
Também as intenções de quebra do especular, nas ''performances'' e ''instalações'' do contemporâneo, para a afirmação de um corpo ''primário'', não resistem à leitura crítica do autor. A aventura de quebrar o espelho e passar para o outro lado seria o grande estereótipo da exibição do corpo nestes eventos. Se a ideologia da liberação do corpo dos anos 60 e 70 é significativa da revolta contra a autoridade das representações e suas referências morais, hoje passa-se da dinâmica da liberação à ''pressão da liberação'' e o estético subsiste na forma de intelectualização que precede a própria performance, retirando-lhe a tensão entre representação e realidade.
A aventura do corpo exibido na performance é a da exacerbação dos estereótipos da representação corporal, ao passo que ela queria ser um aprofundamento do próprio processo de representação. Os discursos dos críticos de arte, apoiando-se nos sistemas teóricos das ciências sociais, nas construções filosóficas, utilizando a aparelhagem conceitual da psicanálise, ofereceriam uma variedade de pontos de vista.
Em meio ao exibicionismo das metalinguagens cria-se a feira de estereótipos. Deixa de haver a tensão entre imagem e representação e impõe-se um enquadramento de conceituação anterior às imagens do corpo. A arte torna-se verdadeira máquina de produzir a estereotipia cultural como um viveiro que engendra equivalência e banalidade.
Não é esse aspecto de soberania que um bom número de artistas tenta alardear? - pergunta o autor. À conquista desenfreada da singularidade, que foi a finalidade implícita da criação artística no século 20, sucede o jogo doravante obrigatório com os estereótipos da singularidade. O corpo, mantendo-se a fonte sagrada de todas as ilusões, garante o futuro dos estereótipos. O corpo enigma permanece o grande estereótipo.
Na dramatização dos embates deste corpo que vê e é visto, que é sujeito e que é objeto, chegamos à cena do corpo virtual. O corpo torna-se incorporal? Torna-se autônomo e imortal nas imagens digitais para além das distinções entre o existente e o inexistente? Segundo o autor, o corpo puro do mundo virtual é o espelho do corpo perfeito em um mundo orgânico. A visão estética do mundo, apoiada no idealismo da corporeidade, acaba por integrar tudo que lhe resiste. O materialismo radical, utilizado por Henri-Pierre, funciona como excitação ''intelectual'' e ameaça ao idealismo estético. Questiona a revolução tecnológica, cuja aventura permitirá, talvez, a democratização da idealização do corpo e a circulação das imagens corporais.
Entre a crença na superação da rede semântica dos estereótipos e o risco constante do risível, o corpo permanece o lugar onde infinitas apostas continuarão a se realizar. Pensar o corpo como matéria ou pensá-lo como virtual são apenas alguns dos desafios contemporâneos diante dos quais a estratégia mais adequada parece ser o jogo, a abertura, a aposta no risco, a experimentação, a composição que integre a alteridade e a semelhança com o outro e com o mundo. Esta visão, um tanto polimorfa, em oposição ao projeto de representação da unidade, não é pós-humana como sugerem alguns, mas apenas um passo na invenção da mesma humanidade que, não sendo senhora do tempo ou do espaço, busca não perder-se de si. Crise da fé na representação, mas gosto pela representação na produção em cadeia de imagens do corpo. Caímos mas não tocamos o fundo, jogamos com esta queda da mesma forma que a criança em Freud.
Fort-da.