Em O suicida, seu livro de estréia, o pernambucano radicado em Santa Catarina Hélio Jorge Cordeiro se utiliza de humor pastelão para fazer uma crítica social contundente
Alan Luna
Dentre os muitos recursos existentes no sempre farto baú de referências legado por Machado de Assis, a figura do narrador-morto das Memórias póstumas de Brás Cubas é um dos mais significativos, pelo leque de possibilidades abertas para os autores que o sucederam. O resultado disso é que, vez por outra, um defunto aparece para nos contar histórias.
Exemplo do tipo está em O suicida, novela de estréia do pernambucano radicado em Santa Catarina Hélio Jorge Cordeiro (que, paradoxalmente, afirma nunca ter lido o livro de Machado). O importante, porém, é que ambos se utilizam do artifício para permitir um distanciamento ao narrador – sendo tudo fato consumado, preceitos morais já não fazem tanto sentido assim...
Dessa forma, fica mais fácil compreender a acidez presente em O suicida. O livro narra as memórias de um típico filho da classe média que está, literalmente, com a corda no pescoço. Em busca das razões para o ato extremado, ele passeia por diversos momentos de sua vida, sobretudo a infância e a adolescência, vividas em algum lugar entre as décadas de 60 e 70 do século passado.
No geral, se as lembranças de Garrincha ou do Santos de Pelé dão um leve toque de memórias sentimentais ao livro, o que sobressai mesmo são os ataques desferidos contra a classe média. Estão lá todas as instituições que a constituem: a dependência de empregada, a festa de 15 anos, o Toddy, o emprego no Banco do Brasil, o pai-provedor-porém-ausente.
Apesar do bom-humor com que tudo é narrado (em tom que beira o pastelão), a visão é, no fim das contas, pessimista. Mal comparando, se para o sociólogo francês Durkheim o suicídio é um ato individual corroborado por um fenômeno social, O suicida de certa forma inverte a lógica: quem se enforca é o narrador, mas quem paga o pato é a classe-média.
Livro de estréia do roteirista, publicitário e artista plástico Hélio Jorge Cordeiro, O suicida foi viabilizado por um concurso promovido pela prefeitura do município catarinense de Itajaí, onde o autor mora atualmente.
Como todo projeto que envolve verba pública, a obra teve que se guiar por determinadas contingências (verba limitada, prazo pré-estabelecido, etc). Isso talvez explique alguns deslizes formais, o que é reconhecido pelo próprio Hélio.
“O livro carece de um olhar mais apurado, principalmente da visão de um editor. Eu acho que ele tem potencial eu gostaria muito de relançá-lo”, diz, adiantando que tem planos de fazer isso futuramente em sua terra natal, onde a linguagem que flerta com o regionalismo poderia ter maior eco. “Eu acho que o livro é mais para o Nordeste, apesar de que as pessoas do sul gostaram muito”, comenta.
Enquanto isso, quem quiser conferir um trecho d’O suicida pode acessar o site Releituras (www.releituras.com.br). Apesar de ter surgido para publicar o melhor de autores consagrados (baseado no aforisma rodriguiano segundo o qual “Deve-se ler pouco e reler muito”), o site abriu o seu leque de atuação para contemplar autores novos. É aí que entra Hélio Jorge.