Obras discutem como e por que a produção literária muda com as novas tecnologias
Haroldo Ceravolo Sereza
O título da primeira parte de
Hamlet no Holodeck
(Itaú Cultural/Unesp, 282 págs.), de
Janet H. Murray, é "Um Novo Meio para Contar Histórias". Seu livro procura discutir justamente o quanto a literatura –
e especialmente a narrativa – ganhou novas possibilidades com a internet, de modo que há histórias que só podem ser contadas pelos autores e vividas pelos leitores no novo meio.
Murray, uma das pensadoras mais conhecidas em sua área, não está sozinha no universo dos “cibercríticos” lançados recentemente em papel. Várias outras obras discutem como a literatura e a cultura têm ganhado novos contornos com o uso das novas tecnologias. São os casos de
Culturas e Artes no Pós-Humano (Paulus, 358 págs., de
Lucia Santaella, de
Leituras de Nós – Ciberespaço e Literatura, de Alckmar Luiz dos Santos, e de
Arte Telemática – Dos Intercâmbios Pontuais aos Ambientes Virtuais Multiusuário, de Gilbertto Prado, publicados pelo Instituto Itaú Cultural em livro e CD-ROM (e que não foram colocados no mercado).
Giselle Bieguelman publicou, recentemente,
O Livro depois do Livro (Peirópolis, 96 págs.). Discute várias obras pensadas para a mídia digital, como o sítio
Anna Karenin Goes to Paradise (
www.teleportacia.org/anna), de Olia Lialina, que faz buscas com as palavras amor, trem e paraíso. “A narrativa perde seus limites. Tem um começo e um fim que não se ligam linearmente. Seu meio é infinito e traiçoeiro como a própria rede.”
As críticas literárias de Giselle têm também uma versão eletrônica, em
www.desvirtual.com/thebook, com links para os textos comentados – os endereços, nessa versão, estão mais atualizados do que no livro. Um dos assuntos de que Giselle trata, entre outros (como o significado e os potenciais do hipertexto), é a emergência dos
blogs, “que permitem ao leitor acompanhar o desenvolvimento da narrativa e também a organização de projetos colaborativos descentralizados”.
Giselle cita, entre tantos autores, Murray, ao afirmar que a nova mídia ainda é mal explorada pelos narradores, que costumam tratar seu conteúdo como “versões expandidas do livro impresso”, mais ou menos “nos termos em que o cinema no início do século 20 era descrito como ‘fotografia animada’”.