Chega ao Brasil o livro de quadrinhos Sandman: Noites Sem Fim
Carlos André Moreira e Ticiano Osório
Sete anos se passaram até que o escritor inglês
Neil Gaiman ressoprasse vida aos Sete Perpétuos. Para desenhar as histórias do luxuoso
Sandman: Noites Sem Fim (Conrad Livros, 160 páginas), ele convocou um time dos sonhos.
O artista P. Craig Russell (Elric) embeleza a Morte, que visita um palácio veneziano de 1751 no melhor conto. Célebre pelo erotismo, o italiano Milo Manara era a única escolha para o ambíguo Desejo, visto com olhos dourados por povos bárbaros. O espanhol Miguelanxo Prado (Mundo Cão) mostra o Sonho antes de o próprio tempo existir. Com design do inglês Dave McKean, o americano Barron Storey pintou 15 retratos de Desespero.
Delírio só poderia mesmo ser desenhada por Bill Sienkiewicz, da ensandecida experimentação técnica de Elektra Assassina. Capista de Preacher, Glenn Fabry arquitetou o impactante thriller de Destruição na península onde se escava não o passado, mas o futuro. Frank Quitely (The Authority) ilustra o dia-a-dia de Destino, o cego acorrentado a um livro que abarca o Universo.
Pelo selo Vertigo, a editora americana DC lançou
Endless Nights em 2003, sete anos após Gaiman encerrar a saga de Morpheus, no número 75 da cultuada revista Sandman (publicada no Brasil pela Globo). "Todas as boas histórias terminam", justificou o autor. Desde então, Gaiman, 43 anos, escreveu premiados romances de fantasia (
Deuses Americanos) e livros infantis (
Coraline).
Ao lado da minissérie
Watchmen (1988), do inglês Alan Moore,
Sandman é tido como o mais adulto e sofisticado gibi de super-herói. Gaiman recriou o personagem, surgido em 1939 como um vigilante de chapéu, terno verde, capa roxa, máscara amarela e pistola com gás para dormir.
O Sandman desenhado por Sam Kieth e Mike Dringenberg se parece com os cantores Robert Smith e Peter Murphy, das bandas góticas The Cure e Bauhaus. Para escrever, Gaiman inspirou-se na fábula de Hans Christian Andersen sobre o homem que sopra a areia dos sonhos e na mitologia grega, de onde vieram os Perpétuos. Nos clássicos de Shakespeare e Dante e na literatura fantástica de G.K. Chesterton e Arthur Machen. Nas canções de Lou Reed e Elvis Costello e nos filmes americanos de serial killers.
A série transcendeu limites: em 1991,
Sonho de uma Noite de Verão, estrelada por Shakespeare, virou a primeira HQ a ganhar o World Fantasy Award, um dos mais importantes prêmios da literatura fantástica.
- Gaiman imprimiu estilo literário no coração do mundo dos gibis, em vez de nivelar por baixo - diz Jotabê Medeiros, crítico cultural do jornal Estado de S. Paulo. - Mas não creio que tenha ampliado o universo de leitores nem influenciado barbaramente outros criadores.
A professora Maria Alice Romano Caputo, do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP, discorda:
- Gaiman influenciou de tal forma que às vezes considero cansativo e excessivo o número de imitações menores. Os personagens fogem ao padrão do herói musculoso invencível. São conceitos, quase deuses caídos, com imperfeições humanas. A própria Morte é uma reinvenção que se afasta do estereótipo. É uma garota bonita e simpática. Ela não é um fim, é a própria eternidade.