Arte antes da morte
Em seu ultimo livro de ensaios, Edward Said (1935-2003) cita Beethoven e Adorno para concluir que a transformação ou a mudança do estilo de um artista pode ser considerada uma espécie de exílio dentro da própria obra
Patrícia Peterle
Especial para o correio
Polêmico. Talvez essa seja a primeira palavra que se pensa quando se lê ou se ouve o nome de Edward Said, um dos maiores pensadores da contemporaneidade e crítico literário e cultural de nossa época. Uma existência às vezes fora do lugar, para lembrar o nome de um de seus inúmeros livros, publicado no Brasil só em 2004, depois da sua morte, em setembro de 2003. Um livro de memórias cujo título, Fora do Lugar , traz uma característica imanente desse grande intelectual dos séculos 20 e 21: a sensação de deslocamento. Tal marca está presente desde os seus primeiros anos de vida. Said viveu no Egito, no Líbano e nos Estados Unidos, onde se fixou, mas permanecendo à margem. Nascido em 1935, na cidade de Jerusalém, Edward Said viu a Palestina “sumir” mais de 10 anos depois. Daí as idas e vindas para países e cidades diferentes. Uma personalidade plural, palestino com cidadania americana, aprendeu ao mesmo tempo o inglês e o árabe. O que se apresenta é um intelectual ativo, que reflete sobre seu papel e sua inserção social num mundo que está muitas vezes à beira de um colapso.
Um dos livros mais conhecidos de Said é Orientalismo (1978), publicado em 1990 no Brasil. Esse livro é um marco nas relações culturais e também políticas, econômicas, sociológicas. De fato, com ele, Said coloca em xeque e interroga a imagem construída e “formalizada” que o Ocidente elaborou, construiu e divulgou do Oriente. Um paradigma que foi questionado e combatido por ele em vários outros textos: Cultura e política (2003), Reflexões sobre o exílio e outros ensaios (2003), Paralelos e paradoxos (2003), Cultura e imperialismo (2005), Representações do intelectual (2005)? Professor de literatura comparada da Universidade de Columbia, em Nova York, Said percebia a literatura como um todo complexo, que não pode ser concebida à margem das outras manifestações do homem e faz parte de uma imbricada rede de conexões e relações. E o que todos esses títulos e o mais novo, Estilo tardio, lançado pela Companhia das Letras, têm em comum?
Quando Said, nas suas palestras em Reith, coloca em questão a representação e o papel do intelectual, ele define uma condição para essa categoria que está presente em sua própria vida, desde a infância. Tal condição remete ao título do livro de memórias, já citado: Fora do lugar. O que significa não um objeto, e sim um indivíduo fora do lugar? Qual é o elo entre esse palestino que viveu pouco tempo em sua terra natal, o italiano Giuseppe Ungaretti, nascido na Alexandria, e ainda o grego Kostantinos Kavafys? A resposta é dada pelo próprio Said, na terceira palestra “Exílio Intelectual - Expatriados e Marginais”, do livro Representações do intelectual: o exílio. O exílio entendido não somente como fruto de um deslocamento físico e geográfico, mas concebido e visto, acima de tudo, como um estado e uma condição. As reflexões sobre o exílio, título de outro livro, podem ser vistas como um dos pontos fulcrais do seu pensamento, que retorna em Estilo tardio. Afirma o autor no primeiro capítulo: “As obras tardias de Beethoven constituem uma forma de exílio”.
Transformação
A transformação ou a mudança do estilo dentro de um panorama delimitado e individual de um artista qualquer pode ser considerada para Said uma espécie de exílio dentro da própria obra. E eis a tese que une diferentes e variados intelectuais: “(...) o período final ou tardio da vida, a decadência do corpo, a falência da saúde ou qualquer outro fator capaz de, mesmo numa pessoa jovem, levar ao fim da vida. Vou me concentrar em grandes artistas que, no fim de suas vidas, criaram um novo idioma para a sua obra e seu pensamento - algo que chamarei de estilo tardio”. É nesse bojo que ele coloca lado a lado Richard Strauss, Ludwig van Beethoven, Arnold Schönberg, Thomas Mann, Jean Genet, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Kostantinos Kaváfis, Samuel Beckett, Lucchino Visconti e Glenn Gould.
As reflexões sobre o estilo tardio desses artistas, como o leitor poderá constatar com a leitura do livro, permanecem de alguma forma abertas. Mas uma coisa é certa: a presença de Adorno e o seu diálogo com as ideias dele são intensos. Mais uma vez, Edward Said retoma e parte do filósofo alemão, sua grande referência. A expressão “estilo tardio” vem dele. O termo spätstil (estilo tardio) de Adorno não tem o mesmo significado para seu “seguidor”, para o filósofo esse termo refere-se a uma espécie de testamento artístico ou um conhecimento que vai sendo acumulado a partir de uma trajetória.
Como lembra Michael Wood na introdução, é preciso ressaltar que o interesse de Said pelo Estilo tardio não tem nada a ver com a sua condição e com a sua autobiografia. Já há escritos e apontamentos desde a década de 1980, enquanto o diagnóstico de leucemia só lhe foi dado em 1991. “A ideia da própria morte aprofundou seu apego à questão do estilo tardio, mas não foi ela que o instigou.”
“Sempre me interessei pelo que fica do lado de fora” e “tenho interesse pela tensão entre o que se representa e o que não se representa, entre o articulado e o silenciado” são duas frases de Said citadas por Wood. E nelas estão intrínsecas as ideias de exílio tão debatidas por esse pensador. A morte ou os sentimentos provocados por ela como se refletem numa obra e num estilo. O que, como, por que e quando são as questões de Said. “(...) Negar ou contornar a mortalidade: ela retorna sob a figura do tema da morte, que a um só tempo mina e estranhamente eleva seus usos da linguagem e da estética.” Como lidar com a morte e sua iminência? Essa é a questão que abre e conclui o livro.