Giovanna Castro
Mariane Pearl conta no livro
'Coração valoroso' a história do seqüestro e degola do marido, Daniel, no Paquistão.
Depois de atravessar um mês no qual o mundo assistiu perplexo às decapitações de reféns perpetradas por terroristas iraquianos em troca da saída das tropas norte-americanas do seu país, o recém-lançado livro
Coração valoroso - A vida e morte de meu marido Daniel Pearl, escrito pela viúva do jornalista,
Mariane Pearl, apresenta ao leitor a gênese de uma modalidade de reação violenta que, naquela época, por certo não se imaginava que tomaria proporções tão assustadoras. Funcionário do Wall Street Journal, Pearl foi um dos primeiros estrangeiros a serem assassinados no Paquistão, num contexto de ânimos exaltados pela ação bélica dos Estados Unidos naquela turbulenta região do Oriente Médio.
A autora, que escreveu o livro com o auxílio da jornalista
Sarah Crichton (ex-redatora da revista Newsweek), conta os motivos da presença do marido no Paquistão, destrinça os fatos que culminaram com o sumiço dele e relata os árduos esforços para encontrá-lo, numa linguagem desprovida de sentimentalismo, embora emocionada. Só que, ao contrário do que possa parecer a princípio, a história concatenada por Mariane não é uma narrativa piegas talhada para exorcizar a mágoa de uma mulher ferida pela perda violenta do marido. Mariane vai além e tenta, por meio da sua tragédia pessoal, fazer uma análise dos problemas que afetam a sociedade norte-americana, e questionar a postura da imprensa daquele país que, segundo ela, pensa de modo muito semelhante à classe política que está no poder.
Pearl, que sumiu em janeiro de 2002, aos 38 anos, foi encontrado morto quatro meses depois. A prova do assassinato circulou pela internet, num vídeo divulgado pelos terroristas que mostrava o momento exato em que o jornalista tinha sua cabeça arrancada do pescoço. Daniel chegou ao Paquistão com a esposa grávida, para acompanhar a série de manifestações antiamericanas que vinham acontecendo em Karachi (capital paquistanesa) no rastro dos atentados de 11 de setembro de 2001 e seria capturado pouco tempo depois, o que mobilizou a comunidade internacional para salvá-lo, em vão.
Ao longo do livro, Mariane (que hoje vive em Nova York com o filho Adam, 2 anos) conta detalhes da vida do casal e também aspectos da personalidade de Daniel que ajudam a entender os valores que o fizeram ir tão fundo nas investigações a ponto de colocar em risco a própria vida. Ela ainda consegue desenvolver uma narrativa realista e envolvente pontuada pela crítica aos fundamentalistas islâmicos, ao governo norte-americano, ao presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, e aos próprios colegas jornalistas que, considera, foram insensíveis diante do seu drama.
Falta de apoio - Mariane (que é uma premiada diretora de documentários, foi ex-produtora e apresentadora da rádio France Internationale e colaboradora da revista Télérama, semanal de maior circulação na França), se queixa de que, até hoje, o assassinato do seu marido ainda não foi totalmente esclarecido e reclama da postura do Wall Street Journal diante do caso. Ela conta que o jornal não se dispõe a participar das investigações por questões políticas.
Aos 36 anos, Mariane Pearl considera que, mais do que a política belicista do governo George W. Bush (que não a surpreendeu), o problema está na falta de discussão sobre a situação do terrorismo e suas implicações. Para ela, cabe agora à sociedade civil a iniciativa de estimular a consciência política uma vez que a imprensa, ocupada em defender seus próprios interesses, não estaria cumprindo seu papel. A história, que já virou best seller nos Estados Unidos, teve seus direitos comprados pela Warner e deve virar filme provavelmente com Brad Pitt no papel de Daniel, e Jennifer Aniston, esposa de Pitt na vida real, interpretando a viúva.