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Viuvas Da Terra

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Autor: CAVALCANTI, KLESTER
Editora: PLANETA DO BRASIL
Assunto: COMUNICAÇÃO




ESGOTADO NO FORNECEDOR

Ficha Técnica Saiu na Imprensa

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2004

Sinopse

O jornalista Klester Cavalcanti passou os últimos cinco anos pesquisando a violência agrária no Brasil. Em suas andanças, entrevistou mais de setenta pessoas, entre advogados, policiais, parentes de vítimas, órfãos, sobreviventes de massacres, sociólogos e acusados. Ainda analisou, uma a uma, mais de 3 mil páginas de inquéritos policiais e processos judiciais relativos aos casos narrados neste livro. E também ouviu as pessoas que, excetuando-se as vítimas, mais sofrem com esse problema - as viúvas. No livro, o autor mostra que, sem o marido e mantenedor, essas mulheres de famílias humildes e quase sempre com muitos filhos têm de enfrentar, além da perda do companheiro, muitas outras dificuldades.
Saiu na Imprensa:

Estado de Minas  /   Data: 12/3/2005
Pior do que a morte
Livro do jornalista Klester Cavalcanti, que será lançado hoje, em belo horizonte, registra a violência do conflito de terras no Brasil a partir da experiência das viúvas de agricultores

João Paulo

Violência e impunidade. Estes são, para Klester Cavalcanti , os dois grandes males que irrigam de sangue o solo brasileiro. Autor do livro Viúvas da terra (Editora Planeta), o jornalista conseguiu juntar inteligência e emoção. A inteligência está no trabalho exaustivo de apuração dos assassinatos de líderes de movimentos de luta pela terra no Pará. Dezenas de entrevistas – com policiais, líderes rurais, fazendeiros, familiares de vítimas, juízes e outros envolvidos na questão da terra na região – dividem esforço de compreensão com a cuidadosa análise de inquéritos policiais e processos judiciais. A emoção vem pela forma escolhida para narrar a história: o relato a partir das viúvas da terra, mulheres que perderam seus companheiros assassinados e que precisam tocar a vida com seis ou mais filhos, no mesmo cenário de miséria e terror. Ficam sem os maridos e com a memória da violência. Ficam pior que os mortos.

Famílias desestruturadas, a dor de ver morrer os companheiros e filhos vítimas não apenas da violência e da ganância, mas da crueldade que espanta e atordoa (torturas, ameaças, execução de criança de 3 anos na frente da mãe e outros exemplos de barbárie), tudo isso faz dessas mulheres pessoas que morrem em vida. Precisam dar conta de continuar criando os muitos filhos, no mesmo lugar em que sentem a vida se perder. As notícias das mortes de agricultores, sindicalistas e religiosos envolvidos na luta pela terra no Brasil chegaram ao autor aos poucos, como pequenas notas, quase registros de ocasião, mas foram se somando a ponto de revelar um quadro de extermínio.

Os números são assustadores. De acordo com levantamento realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), de 1985 a 2003, foram 1.373 homicídios em todo o Brasil. Engana-se quem pensa que se trata de uma questão regional. Os crimes se espalham por todo o País. No Paraná, foram 47; em Minas Gerais, 78; no Pará, 509. O que unifica a estatística é o índice de impunidade: 100%. Apenas 122 casos chegaram a ser julgados, nove mandantes foram condenados. Nenhum está preso. Para quem acha que o recente assassinato da religiosa Dorothy Stang mudou o cenário, a notícia é desanimadora. Para Klester, a presença do Exército na região, "com rapazinhos de verde e movimentação de helicópteros, só é boa para imagem de TV". E vai adiante: "A morte de uma americana não pode valer mais que a de um brasileiro. Pode até haver boa intenção, mas o governo não sabe o que fazer, porque desconhece a questão em sua profundidade".

A mesma acusação o autor faz à imprensa. "Ela trata maI o assunto da terra. Não sabe o que está acontecendo. Com a morte da irmã Dorothy; os repórteres foram para a região. Mas é tudo por causa da repercussão internacional que o caso ganhou. A imprensa tem culpa na ignorância do brasileiro sobre o problema". Para Klester, um dos grandes males da imprensa é a falta de conhecimento, que leva a reforçar preconceitos. Um dos maiores é o que classifica a questão como "localizada". Os assassinatos estão em todos os estados, com a mesma marca de impunidade. Além disso, a visão ideológica da questão da propriedade contamina as coberturas. Por fim, há preconceito com a própria origem humilde das gentes assassinadas. "As pessoas procuram fugir da realidade dura e seca. Vivem em um mundo oco, têm medo de enfrentar a realidade, de ver brasileiros sendo dizimados todos os dias", analisa.

O livro é dividido em seis capítulos. São histórias de vida e morte. O volume é aberto com a história de Maria de Jesus, viúva do agricultor Sebastião Pereira de Souza, assassinado com 13 tiros, em outubro de 1987. A cena que inicia o relato é aparentemente corriqueira, pobre, mas perpassada até de um certo lirismo: Maria de Jesus em sua casa de chão batido, o rádio entoando a ave-maria, à espera do marido e dos seis filhos que trabalham na roça, para o jantar - um copo de café e um pedaço de pão. Maria tem corpo companhia apenas o filho Clésio, de 3 anos. Antes de Sebastião e os filhos retomarem à casa, presos por causa de uma chuva forte na roça, chegam a nora e João, um amigo da família, jovem de 25 anos.

O que vem a seguir é pura brutalidade. Três homens entram na casa anunciando que vieram matar Sebastião. Como ele não estava, surram as duas mulheres, colocam o cano da espingarda na boca de João e puxam o gatilho. Pedaços de cabeça do rapaz se espalham sobre as duas mulheres, obrigadas a ficar deitadas ao lado do corpo. Só com a chegada de Sebastião e os filhos o leitor fica sabendo do motivo do crime. O agricultor era líder de um grupo de30 famílias de lavradores que disputavam a posse de uma área da Fazenda Baronesa, localizada em Guaranésia, Sudeste do Pará. Os proprietários, os irmãos portugueses Hermínio e Joaquim Ferreira Branco, foram os mandantes do crime.

A situação revela um drama da região. Muitos chegaram ao Pará atraídos pelas campanhas de colonização, que ofereceram terras a baixo preço, seguindo slogans da época, como "integrar para não entregar" (que aludia a'um pretenso interesse articulado de americanos pela Amazônia). Os novos proprietários chegaram e recuperaram seu pequeno investimento derrubando florestas intocadas. A madeira farta, no entanto, exigiu contratação de mão-de-obra, que foi recrutada em estados do Nordeste, principalmente Maranhão e Bahia. Passado o ciclo de desmatamento, os fazendeiros (que já haviam ampliado a propriedade em processos de grilagem de terras públicas) mudam de atividade, empastando tudo para a criação de gado, que não exige tanta gente como a atividade madeireira. Famílias inteiras ficam sem ocupação e a luta por um pedaço de terra é uma forma de sobrevivência. Ou de morte.

Mas a história de Maria de Jesus prossegue de forma ainda mais terrível. Depois de recolher restos da cabeça do amigo com a enxada, Sebastião decide juntar toda a família e ir até a polícia dar queixa. No caminho, sofre uma emboscada. Maria de Jesus e os filhos se escondem na mata. Mas Sebastião, com o filho de 3 anos nos ombros, encara os criminosos e se recusa a fugir. Recebe um tiro de espingarda calibre12 no peito e tomba sem vida, instintivamente protegendo o filho.

Começa aí a cena mais dolorosa de todo o livro: "Um dos criminosos pegou Clésio pelo braço esquerdo, suspendendo-o como se de um saco se tratasse. O menino chorava, esperneava, clamava pela mãe. Maria de Jesus quis emergir da lama e correr para salvar o filho, mas o corpo não obedecia aos comandos do cérebro. Estava paralisado de pânico e ódio. O bandido jogou Clésio sobre o corpo de Sebastião, coberto por uma mistura de sangue e lama. Ao mesmo tempo, os cinco assassinos, num ato de selvageria que impressionaria até os investigadores da polícia, alvejaram pai e filho. O legista Paulo Soares contou 13 balas no corpo de Sebastião e oito no de Clésio".

Maria de Jesus, atualmente com 62 anos, vive com a família em São Domingos do Araguaia, na mesma região. Não superou o trauma, só fala aos gritos, tem o olhar perdido e se desespera sempre que um filho se afasta dela. Tentou se suicidar, tem crises de choro e pesadelos. Dezoito anos depois, os assassinos estão impunes. O processo com as informações necessárias ao julgamento dos mandantes, os irmãos Ferreira Branco, como aponta o inquérito, desapareceu da Comarca de Rondon do Pará.

Com ingredientes semelhantes, as outras histórias do livro repetem o mesmo enredo: assassinatos cruéis e impunidade. Maria Joel da Costa, Antônia de Oliveira, Geraldina Canuto e Leci Rodrigues são outras viúvas da terra, que perderam o marido, pai de seus filhos e mantenedor da casa, todos de forma covarde e seguidas do mesmo teatro de "justiça". Os mandantes não foram a julgamento. Se foram, não foram condenados. Se condenados, estão foragidos. A impunidade, de acordo com Klester, se dá por um misto de medo e corrupção. "O dinheiro e o poder político influem, mas muitas vezes o juiz pode até querer fazer tudo de forma correta, então, sofre ameaças de morte em comarcas pequenas, nas quais o poder dos donos de terra parece absoluto", afirma. Cada capítulo do livro é fechado com um balanço da situação em 2003. "Mas mesmo hoje, em 2005, nada precisa ser refeito. Todos os crimes continuam impunes", informa o autor.

A guerra no campo continua. A recente chacina em Felisburgo, no mineiro Vale do Jequitinhonha, é mais um capítulo. O Estado tem mais de 80 assassinatos motivados por questões de posse de terra. A violência é brutal e a impunidade segue os mesmos padrões relatados por Klester no Pará. A idéia de escrever o livro veio da constatação de que as mortes de agricultores, religiosos e sindicalistas, com o tempo, passaram a ganhar apenas registros telegráficos nos jornais, como se fizessem parte de baixas causadas por uma doença inevitável.

A perda da capacidade de indignação também é uma doença.


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