Opinião do Leitor:
Inácio Fernandes de Medeiros / Data: 30/5/1999
Conceito do leitor:
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O Horror Econômico.
Não há nada que paralise mais que a vergonha. E vergonha é o que sentem os desempregados, os excluídos. E se autocriticam, se autoflagelam por estarem nessa situação, que acabam introjetando pela visão da classe dominante e se considerando os responsáveis por estarem marginalizados. Eles se acusam daquilo de que são vítimas! O trabalhador em vez de temer a exploração pelo trabalho, passa a ter medo de não ser explorável, ou utilizando-se de um termo eufemístico, porém atual: empregável. Viviane Forrester, em seu best-seller francês intitulado “O Horror Econômico”, afirma que vivemos no meio de uma “magnífica ilusão”. “Nossos conceitos de trabalho e de desemprego, manipulados por políticos, não têm mais qualquer substância”. Ela anuncia que uma nova civilização já se iniciou e nela só uma pequena parcela da população mundial encontrará trabalho. A globalização, tal como é considerada, começa por ser uma fábula. Essa fábula se tornou possível exatamente pela violência da informação. Produzem-se idéias que são impostas. Nesse sentido, o que Forrester afirma a propósito da “magnífica ilusão” parece correto. Mas é a partir dessa ilusão e dessa fábula que são impostas fórmulas que conduzem os países em sua economia, política e relações sociais. São fábulas perversas, como essa que fazem com que não discutamos a solidariedade. Todos os debates são feitos naturalizando a perversidade, através da naturalização da desigualdade social. É uma tristeza que a discussão sobre o desemprego se limite a uma relação mensal de números falsos apresentados sob a máscara de estatísticas. Os fatos estão aí para demonstrar. O horror econômico parece uma fatalidade. A situação é mais grave quando se sabe que empresas continuam demitindo mesmo com lucros crescentes. Viviane Forrester coloca ao centro do seu ensaio, não números ou estatísticas, mas o drama das pessoas sem emprego e sem perspectivas reais de tê-lo no atual quadro econômico europeu. Forrester questiona o modelo econômico em vigor em boa parte do mundo e aponta-o como responsável pelo aumento do desemprego criticando o que chama de “anarquia do capitalismo”. “Pela primeira vez na história a massa humana, deixa de ser necessária sob o ponto de vista econômico”. A globalização, a automação e a desregulamentação, estão promovendo, segundo a escritora, o fim da era do emprego. De uma etapa de exploração no século XIX passou-se direto para outra, de exclusão. “Em lugar da propagação da prosperidade, ocorre a mundialização da miséria”. A questão do emprego na sociedade contemporânea é crucial; todas as relações de sociabilidade estão centradas na figura do trabalho. Aquele que por qualquer razão perder a condição de realizá-lo, encontra-se sem as mínimas condições de sobrevivência com dignidade. Conforme afirma Viviane Forrester: “Segundo o costume secular, atua aqui um princípio fundamental: para um indivíduo sem função não há lugar, não há mais acesso evidente à vida, pelo menos ao seu alcance. Ora, as funções hoje desaparecem irrevogavelmente, mas esse princípio perdura, mesmo que doravante ele não possa mais organizar a sociedade, mas apenas destruir o estatuto dos humanos, deteriorar vidas ou até mesmo dizimá-las.” A escritora também atesta com todas as letras que as classes dominantes, que têm implementado essas políticas, estão atuando em outras esferas: “...esse desaparecimento (do trabalho) não incomoda em nada os verdadeiros poderes, os da economia de mercado. Mas a miséria causada por esse desaparecimento também não é o seu objetivo... O que lhes importa e que deixa na sombra todos os outros fenômenos são as massas monetárias, os jogos financeiros – as especulações, as transações inéditas, os fluxos impalpáveis, aquela realidade virtual, hoje mais influente que qualquer outra”. “E insistimos todos em considerar norma um passado extinto, um modelo apodrecido”. O que ocorre, hoje, é que vivemos numa sociedade onde se vai “da exploração à exclusão”, “da exclusão à eliminação”. Isto porque “permanecemos em zonas calcinadas onde o grande ordenador é o lucro”. Por isso, também, a massa de excluídos em todo o mundo constituirá um formidável exército de dinossauros que a economia moderna eliminará como supérfluo. Vivemos sob a égide dos “melhores”, os economicamente bem sucedidos, que defendem que só a eles cabe viver. O Horror Econômico, de Viviane Forrester, analisa a decomposição dos valores humanísticos e sociais que se desvanecem diante da dominação absoluta do mercado, sob as leis cegas do mercado livre que conduzem ao gueto, principalmente pelo desemprego e subemprego, três quartos da população mundial. A autora nos conduz à seguinte reflexão: se os não-arianos estão sendo destinados ao gueto e como a manutenção de um gueto é um paradoxo econômico no sistema capitalista (para que produzir para quem não pode produzir?) a solução, a médio e longo prazo aparece como sendo o extermínio em massa. Menos custos para maior lucro. Na moderna economia de mercado o emprego é supérfluo, já não mais existe. No entanto, para superar a lógica do sistema capitalista, o desemprego deve ser “nossa preocupação maior” e a volta do emprego, “nossa prioridade”. Porém, por mais que se apregoem medidas de ampliação dos quadros de emprego, sabe-se que a atual estrutura econômica, aliada aos avanços tecnológicos na prática conduzem em direções opostas ao pleno emprego. O Horror Econômico deve ser lido e visto como um livro de caráter satírico e difamatório aos nossos consentimentos e contemporizações diante da tirania do capital. Deve levar-nos a uma profunda reflexão do processo histórico, onde enxergamos o passado mas não vislumbramos o futuro. É este o destino histórico que queremos?
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