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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
1ª Edição
- 2004
216 pág.
'O país dos ponteiros desencontrados' é um intrigante jogo de espelhos em que o leitor se depara com livros dentro de livros.
Saiu na Imprensa:
Estado de Minas /
Data: 5/2/2005 O tempo urge
Novo romance de Flávio Moreira da costa, O país dos ponteiros desencontrados se insere na linhagem dos clássicos da subversão
Duílio Gomes
O escritor Flávio Moreira da Costa dispensa apresentação, mas é bom lembrar a algum desavisado que esse contista, romancista e tradutor gaúcho tem talento e bagagem ficcional de sobra; somente o seu romance O equilibrista no arame farpado , de 1997, ganhou quatro prêmios importantes - o Jabuti, o Nestlé de Literatura, o Machado de Assis de Romance e o da UBE. O autor vem se destacando também como um dos melhores antologistas de histórias curtas do país.
Seu mais recente romance (o décimo) já vem chamando a atenção da crítica e dos leitores pela originalidade de sua concepção. O país dos ponteiros desencontrados , que começou a ser escrito no Bairro Peixoto, do Rio, em 1988, e foi terminado em 2003, em Marnay-sur-Seine (França), cobre 214 páginas de delirante invenção. Esse delírio começa logo no início, quando a Abralp, uma agência de busca e recuperação de autores e livros perdidos, se empenha em descobrir o paradeiro do escritor João do Silêncio, justamente o "autor' do romance que se vai ler.
João do Silêncio está desaparecido, mas o seu romance é genial, alegórico, pretensiosamente (no bom sentido) inovador. Integra, desde o início, a família literária de Samuel Rawet, Clarice Lispector, Lúcio Cardoso e Hilda Hilst. Brinca com a lógica, mistura poesia e prosa, mergulha na abstração, abre enormes parágrafos gráficos no meio do texto, subverte os cânones clássicos do romance, mostra a língua para o leitor e coroa isso tudo espalhando irreverências diante da tensa solenidade da literatura.
As epígrafes do livro são de Jorge de Lima (Invenções de Orfeu), Lord Byron e um provérbio chinês - "E mais tarde do que você pensa". Nesse clima de milenar sabedoria, abre-se o romance como uma flor no caleidoscópio, incessantemente renovada em suas multicoloridas multifacetas. Um país, Aldara (alguma coisa a ver com a intemporal Odara, de Caetano Veloso?) se vê às voltas com um problema: todos os ponteiros de seus relógios estão desencontrados. Isso gera um monte de percalços, como se pode inferir.
Uma comissão estrangeira, presidida pelo suíço Johann Faber (o nome não lembra alguma coisa?) chega a Aldara para estudar a complexa questão. É quando o leitor ganha uma lição de relojoaria. Esses instrumentos de mostrar o tempo existem há centenas de anos e servem a todos os gostos, dos pontualíssimos suíços aos digitais japoneses, os siderais, os de Sol, os de areia - popularmente conhecidos como ampulhetas -, os de pulso e os de parede, o quadrante solar grego, os de torres, os de repetição, os elétricos, os polares, os equinociais, aquele de rodas (criado pelo Papa Silvestre lI, em 950 d.e), sem desprezar o ecológico e lírico de cuco (cuco, cuco, cuco, pia ele em seus ouvidos de hora em hora).
De repente, como as camadas de um rocambole, poesia ("depois de transpor o tempo/ silêncio e sua humildade/ o pai sentou-se ao meu lado/ e agora somos pra sempre"). O futuro é verde, revestido de amarelo. Lembra também alguma coisa, algum país? E novamente de repente, surrealismo - "Depois da primeira missa, do porto seguro, tão inseguro agora, morte e vida severina".
Vá juntando as peças, como em um quebra-cabeça. Sabia que os nossos índios tinham um relógio-uirupuru? ("A engenhosa invenção nacional. na realidade quase que uma apropriação da natureza, tinha a desvantagem, do ponto de vista do processo civilizatório, de não marcar segundos, minutos, horas, dias nem meses.") O índio-poeta poderia argumentar, a seu favor, "mas pra que tanta pressa?"
Esse deliciosamente fragmentado e caótico O país dos ponteiros desencontrados é primo espiritual e experimental de O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, de Oswald de Andrade. Os dois (já havia sacado Mário da Silva Brito a propósito do segundo) formam uma anti-história com seu pathos enlouquecido, trazem técnica inusitada e um "surrealismo natural e espontâneo."
Fabricio Carpinejar fez uma leitura semelhante de O país..., um romance que não tem nada de comum. Quanto ao autor, Flávio/João do Silêncio, "assassina lugares-comuns, desacostuma os nervos, procurando olhar pela primeira vez o que parecia esgotado. Tem uma intuição altamente poética, de subverter a ordem pela intimidade."
O autor brinca com um mito literário, gaúcho como ele, no posfácio do livro - Olhai os lixos do campo. E oferece ao leitor, logo depois, como um bônus, frases de diversos autores sobre o tempo. Como esta, de Emerson, "O veneno mais eficiente é o tempo."
Flávio Moreira da Costa está no auge de sua maturidade literária. Sua habilidade em compor tipos e situações chega a ser a de um mágico que tira coisas bem mais exóticas do que simples coelhos da cartola. O país dos ponteiros desencontrados é uma pequena obra-prima que o tempo (sempre o tempo...) vai confirmar.
COSTA, FLAVIO MOREIRA DA Autor de 'O Desastronautas' e 'As Armas e os Barões', ainda nos seus vinte anos, Flávio Moreira da Costa foi o escritor brasileiro mais premiado nos últimos cinco anos, com o romance 'O Equilibrista do Arame Farpado' e com o livro de contos 'Nem Todo Canário é Belga'.
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