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Em um dia como qualquer outro em sua vida, a diretora artística Renata Quintella resolveu sair pelas ruas de São Paulo abordando pessoas aleatoriamente com a seguinte pergunta: O que eu posso fazer por você agora? Passada a surpresa inicial dos transeuntes, naquele dia, ela carregou sacolas, organizou uma festa relâmpago de aniversário, empurrou uma carroça, entre outras coisas. Tudo sem pedir nada em troca. A ação acabou se tornando um projeto denominado A nossa Jornada, que continua ajudando pessoas.

Em sua concepção, sua atitude se enquadra exatamente no conceito de generosidade. “Generosidade é o maior sentimento que existe. Porque nele moram a gratidão, o amor, o respeito, a alegria e a esperança. É compartilhar o que você tem, na certeza de que nada lhe faltará. Ser generoso é ser conectado com a sua alma. Ser gentil pode ser momentâneo, pode ser um tipo de simpatia. Toda pessoa generosa é gentil, mas nem toda pessoa gentil é generosa”, define.

Ao associar generosidade e gentileza, Quintella entra naquela zona cinzenta que determina o que é realmente generosidade. É possível que exista um ato totalmente descompromissado? Que régua é capaz de medir a bondade do ser humano? Para Robert Sussman, professor de antropologia da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, autor do livro Origens da cooperação e do altruísmo, não existe generosidade inata no ser humano e, por isso, ela é tão difícil de ser definida de um modo preciso ou padronizado. “Essas ideias e conceitos fazem parte de nossa socialização. Os seres humanos aprendem a se comportar de acordo com sua cultura. Como a pessoa age depende de sua experiência de aprendizado em sociedade”, diz.

Esse ponto de vista também é defendido pelo biólogo Michael Wade, que pesquisa evolução e comportamento na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e publicou diversos estudos sobre altruísmo e generosidade. De acordo com ele, o ambiente define o modo como você ajuda seu vizinho, e isso varia de sociedade para sociedade. “Há uma variação, mesmo em sociedades ou em espécies muito parecidas. Apesar disso, provavelmente, existem fatores genéticos que influenciam também. Em um ambiente de estresse social, por exemplo, sabemos que o coletivo consegue adquirir mais recursos para solucionar problemas”, explica.

Segundo Dulce Critelli, professora de Filosofia da PUC-SP, doutora em Psicologia da Educação e terapeuta existencial, um indivíduo é generoso quando oferece a uma outra pessoa ou a alguma comunidade de pessoas algo que elas precisam, mas sem esperar nada em troca. “Há nesse ato uma doação de algo pessoal, algo que se tem e o outro não. Alguém pode ser generoso com o dinheiro que possui, ou com o seu tempo, generoso com suas ideias, seu afeto, a camisa do corpo. Alguém sempre atento à necessidade do outro e que se doa para colaborar é generoso”, afirma ela, que é também fundadora e coordenadora do Existentia — Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana.

A visão de que a generosidade só funciona se for isenta de qualquer intenção posterior é, segundo alguns especialistas, discutível. O irlandês Nigel Barber, professor da Birmingham-Southern College, nos Estados Unidos, nome de peso na biopsicologia e autor de Bondade em um mundo cruel: as origens do altruísmo, estuda o tema e o aborda com frequência em seus artigos para jornais. De acordo com ele, se uma cafeteria, por exemplo, oferecer um dia de café grátis, mesmo tendo como intenção fidelizar o cliente no futuro, isso ainda é generosidade. Pelo menos a generosidade possível no século 21.

“Economistas veem o comportamento guiado exclusivamente pelo interesse próprio. Então, há um viés de entender transações monetárias como puramente egoístas e para ganho pessoal. No entanto, essa abordagem é enganosa. Uma sociedade baseada somente no dinheiro seria desagradável para se viver. Mas, no fundo, quanto mais as pessoas confiam em transações monetárias, mais humanas e civilizadas se tornam suas relações. Elas se tornam mais educadas e generosas, considerando a necessidade alheia. O mundo só fará sentido se os negócios forem feitos a partir do altruísmo recíproco. Quanto melhor nos negócios, mais generosos nos tornaremos”, diz.

John David Mann, consultor de carreiras e autor do best-seller O conselheiro, também defende a tese de que a generosidade deve ser desmistificada e ser aplicada no mundo dos negócios. Em seu livro, escrito em parceria com Bob Burg, ele tenta demonstrar que um empresário generoso é mais bem-sucedido. Antes, porém, ele alerta que seu conceito de generosidade não é caridade, embora ache a prática “louvável”. “Com ser generoso, quero dizer uma pessoa que se doe, vivendo generosamente em todos os sentidos, momento a momento, com foco em adicionar valor à vida do próximo”, explica. Ainda segundo ele, quem vive uma vida de antagonismos deixa de ver diversas oportunidades. “De fato, a maioria dos modos como podemos ser generosos não tira nada de nós. As maneiras mais eficazes são oferecer nosso tempo, nossa atenção, nosso cuidado, nosso suporte, nossa experiência e nossos conselhos”, afirma.

Do ponto de vista biológico, a natureza humana parece, ou parecia, desmentir uma generosidade inata. A célebre teoria da seleção natural, do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882), prima pelo conflito. Seu trabalho baseia-se no fato de que o homem evolui por meio da competição, que preserva as melhores linhagens de indivíduos. Em 2012, o respeitado biólogo americano Edward Wilson, da Universidade Harvard, vencedor de dois prêmios Pulitzer de não ficção, publicou um estudo chamado A conquista social da Terra, no qual afirma que agir em seu próprio benefício não é bom para ninguém. De acordo com ele, o processo evolutivo alcança mais sucesso em sociedades colaborativas, com forte predominância da generosidade, ou seja, que age com o olhar voltado para o outro. A teoria colocou em xeque o apostolado de Darwin e trouxe uma nova e mais moderna luz à discussão do comportamento humano.

Para Quintella, que vivencia isso em seu cotidiano, a generosidade realmente não requer sacrifício, pois isso seria descaracterizá-la. É justamente esse o propósito do pensamento de Wilson: não há ônus, apenas bônus, ao ajudar o outro. “Por que você vai sofrer para ajudar alguém? Por que alguém precisa ser responsável pelo seu sofrimento? Você pode compartilhar o que tem. Eu compartilho. Se cada pessoa fizer um pouquinho, aquele pouquinho que lhe é possível, juntos, faremos muito”, diz ela.

GENEROSIDADE SUBESTIMADA
Em seu Pequeno tratado das grandes virtudes, o filósofo contemporâneo francês Comte-Sponville escreveu que a “generosidade só brilha, na maioria das vezes, por sua ausência”. Apesar de estar na ordem do dia quando se trata de discursos, a implementação dela no cotidiano ainda está longe de ser comum. Em uma sociedade que, em grande parte, é pautada pelo acúmulo de recursos e satisfação individual, é difícil pôr em prática uma consciência que diga respeito ao coletivo. “Acredito que a generosidade e o altruísmo são ignorados muitas vezes. O chamado bem comum perde espaço para interesses individuais. Não sei se podemos alcançar uma sociedade mais generosa, mas um começo seria imaginarmos o outro como uma extensão de nossa família”, reflete Wade.

Quintella confirma que sua vida mudou depois de suas ações e acredita que, ao ajudar alguém, você ajuda a si mesmo. “As pessoas estão mais prontas para dar do que para receber. Porque para pedir e estar aberto para receber uma ajuda é preciso muita coragem. Nesses dois anos e quatro meses do projeto, descobri que tem muita gente boa no mundo, só esperando uma oportunidade confiável para ajudar o próximo”, garante.

“A generosidade implica sempre atenção à pessoa, amor. Nem atos de natureza religiosa são, necessariamente, generosos, veja-se os atos terroristas e homicidas dos fundamentalistas em nossa atualidade. Amor ao ser humano implica tolerância, reconhecimento de que o outro, como eu mesma, tem direito às suas escolhas e às decisões sobre o seu destino. Generosidade não se ensina, é algo que provoca, convoca os outros por meio do exemplo que alguém dá com sua própria conduta, e não de palavras que profira. Como Gandhi fez, quando, em vez de apenas falar que é possível agir sem recorrer à violência, agiu sempre pacificamente. Ele tinha uma confiança generosa no ser humano”, comenta Critelli.

Já Sussman acredita que generosidade pode ser ensinada como um fundamento. O principal ponto, segundo ele, é ensinar as crianças sobre diversidade. “A generosidade é frequentemente ignorada em nossa sociedade. Podemos ensinar nossas crianças a serem mais abertas para as diferenças, mais generosas nas relações humanas. Nada escapa da educação”, opina.

Nigel Barber acha que a generosidade é tão importante quanto o modo como a sociedade a define. Como exemplo, ele usa o soldado que se sacrifica pelo companheiro no front. Para ele, isso é generosidade, mas não é um ato do dia a dia, que é onde a atenção deve estar. O especialista acredita que precisamos criar um conceito mais realista do que significa ser generoso. Por isso, defende o que chama de altruísmo recíproco. “É como quando dizemos ‘você coça minhas costas, e eu coço a sua’. Se conseguirmos adicionar valor em uma relação ganha-ganha, teremos uma sociedade melhor. Esse tipo de generosidade deve ser incentivado”, opina.

Mais otimista do que o colega, Mann enxerga uma sociedade cada vez mais generosa. Segundo ele, esse é o único caminho possível para habitarmos este planeta. “Apesar de toda a dor e de todo o conflito no mundo, quando olho para o passado vejo um movimento progressivo de tolerância e respeito aos direitos humanos. Ou seja, mais generosidade.”

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