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“(...) em todos os lugares o amor acaba;
a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba;
para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”

O amor acaba – Crônicas líricas e existenciais, de Paulo Mendes Campos, maio de 1964

Existem inúmeros manuais na internet para detectar o fim do amor. Qualquer busca rápida no Google pelos termos “fim do amor” dá centenas de resultados desse tipo, além de memes e de figuras de corações rachados e de olhos cheios de lágrimas. Eles ensinam os sinais para você – caso não tenha notado – perceber que o grande sentimento que o unia ao seu parceiro chegou ao fim. São coisas como dizer que ama por costume, pensar muito em como seria a vida sem o outro, evitá-lo, fazer sexo sem vontade, não fazer planos de longo prazo etc.

O que os manuais instantâneos de internet não ensinam, entretanto, é o mecanismo que entra em ação quando o sentimento acaba. Aliás, mais do que isso, ninguém sequer ensina como agir ou o que fazer em situações desse tipo, tão comuns para qualquer ser vivo que já se relacionou com alguma outra pessoa, como você e como eu, e que viu e viveu as dores do fim de um relacionamento. Dores, aliás, inevitáveis. Embora um estudo da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, mostre que o parceiro deixado sofre mais, mesmo que já estivesse infeliz na relação, a dor é compartilhada por quem decidiu pelo fim da relação. “Claro que quem toma a iniciativa é mais racional, pois já tem motivos alinhados para justificar a decisão”, aponta o neurocientista Aristides Brito, especializado em neuropsicologia.

O motivo para tanto sofrimento, como Brito explica, é uma dupla de neurotransmissores. A dopamina e a norepinefrina, produzidas no início do relacionamento (e responsáveis por sintomas conhecidos pelos apaixonados, como mão suada, taquicardia e frio na barriga), reaparecem no fim do relacionamento. “Quando uma pessoa termina com outra, o cérebro dela começa a produzir os mesmos neurotransmissores, como se buscasse reatar”, diz Brito, segundo quem isso representa uma armadilha do cérebro. A função biológica disso, afirma, é manter a proximidade com o fim de reprodução. “Por isso, muitas vezes, as pessoas tentam reatar. Porque, embora muitos tenham certeza de que o relacionamento não dará mais certo, a sensação é de ainda gostar”, explica.

Todavia, apesar de inevitável, a dor passa: cientistas já provaram que a mente tende a voltar, em cerca de um ano, ao estado anterior a uma ruptura (seja positiva, como ganhar uma bolada na loteria, seja negativa, como sofrer um acidente grave e ficar paraplégico). Dói e dói muito, todos sabemos bem, mas é muito difícil morrer de amor ou do fim dele. “Ao longo da vida, passamos de uma posição subjetiva para outra e, de repente, duas pessoas que se amaram já não coincidem mais”, diz a psicanalista Betty Milan, autora de livros sobre o tema. “Daí, só resta se separar ou reinventar a relação em outros moldes.” E ela garante: “Isso é possível. Não é fácil se separar, mas a separação é vital”, conclui.

Nessa área, os especialistas concordam que não há certezas de que “amor é experiência, e não teoria”, como definiu a psicóloga Rosana Braga, consultora de um site de relacionamentos. “Alguém pode apostar que já não ama a outra pessoa e, ao se ver sem ela, dar-se conta do quanto estava enganado”, lembra. “Por outro lado, alguém pode jurar que ama e, ao conviver com o objeto do amor, se dar conta de que nada tem a ver com ele.”

UM FIM SEM FIM
Embora dolorosa, a tendência natural de quando o amor acaba é a separação do casal. No entanto, isso nem sempre acontece. “Embora muitas pessoas acreditem que o amor começa e termina feito mágica, não acredito nisso”, diz Rosana, que defende que “amor é conexão e sintonia, é a prática da vontade, é verbo de ação”. No vazio do fim do amor, como ela diz, cabem inúmeros sentimentos, como raiva, mágoa, tristeza, culpa, ressentimento, indiferença, carinho de amigo, frustração, medo, solidão... “O corpo e a mente reagem a tudo isso com desejo de ferir o outro ou de ir embora – ou ainda de manter uma amizade a despeito do amor que compartilharam um dia.”

A psicóloga Lecticia Raposo, especializada em terapia de famílias e de casais, elenca alguns dos motivos para que cônjuges decidam permanecer sob o mesmo teto ainda que o relacionamento tenha, de fato, acabado. As razões podem ser divididas em dois grupos: consensuais ou unilaterais. Segundo ela, a mais comum é o hábito. “É quando se confunde o fim com uma eventual transformação no relacionamento, que leva a uma indiferença sobre o que acontece”, diz.

Outra razão comum é o medo da mudança. “Nesses casos, um dos cônjuges pondera o que aconteceria se decidisse pela separação. É o famoso ‘ruim com ele, pior sem ele’”, diz a especialista, lembrando que “o conhecido traz sensação de controle e de segurança”. Há ainda a possibilidade de que um dos parceiros, em geral o que nota o fim do sentimento, fique na relação por respeito e admiração. “Acaba virando uma amizade, que, para o outro, pode ser bastante frustrante”, diz o neurocientista Brito. “Se a pessoa ainda produz neurotransmissores (dopamina, principalmente), ela quer contato físico, inclusive sexual, e o outro vai evitar”, explica.

Uma terceira razão é apontada pela psicóloga como uma “grande bobagem”. É o que é visto como o fator de “manutenção da família”. “Existe no imaginário das pessoas a sensação de que se o casamento acaba, acaba a família, mas isso não é necessariamente verdade, porque a relação parental transcende o casamento”, explica. Segundo ela, a mãe e o pai não deixarão de ser mãe ou pai, ainda que separados. “Eles só não vão mais morar juntos”, lembra.

Para o sexólogo João Borzino, entretanto, essa questão é vista de outra forma: “É por colaboração e parceria, além da necessidade de estar junto dos filhos, que muitos casais veem o lado bom do laço fraterno criado (nos parceiros) e optam por não se separar fisicamente”. Borzino, na realidade, vê com bons olhos a questão: “Acho muito positivo cônjuges que se tornam amigos para criar os filhos”. Segundo ele, isso mostra que “ainda respeitam o laço que têm como pais e respeitam a cooperação na criação dos filhos”.

Os problemas financeiros podem ser outra razão para a permanência do casal rompido sob o mesmo teto. “É quando os dois se dão conta de que, separados, iriam à falência”, diz Lecticia. Nesses casos, como em uma espécie de comum acordo, os dois passam a viver juntos embora separados. “É muito complicado para os cônjuges, que vivem no mesmo ambiente, dividem despesas, mas não se relacionam com outras pessoas”, diz. Ela explica ainda que, nesse caso, as fronteiras entre o que é ou não “casal” ficam muito tênues, gerando ainda mais estresse.


ELES E ELAS
Outra das razões é mais presente entre as mulheres, segundo ela. “Algumas vezes, há um projeto pessoal de ter filhos que, acabado o casamento, não pode ir adiante”, explica. O relógio biológico feminino pode levar a pessoa a se questionar se está com o parceiro por ele mesmo ou pelo projeto – e a resposta, como diz Lecticia, pode levar a frustrações. “Frequentemente, é difícil admitir que os filhos ou que qualquer outro projeto pessoal é a verdadeira motivação para seguir junto”, diz. E pode acontecer de a mulher, ainda que infeliz, decidir permanecer na relação para realizar o desejo de ter filhos.

Em se tratando de gênero, o neurocientista Brito aponta as diferenças quando o assunto é o fim do amor. “As mulheres tendem a enxergar a situação de forma mais completa, convivendo melhor com as emoções”, assegura. Por isso, segundo ele, elas são mais seguras para terminar um relacionamento do que os homens. “Quando a mulher termina, termina mesmo. Já o homem vai terminar umas cinco vezes até ter a certeza de que era isso mesmo que queria”, brinca. A explicação passa pela área pré-frontal do cérebro, ligada à nossa humanidade, e pelo sistema límbico, responsável pelas emoções. Brito diz que, nas mulheres, o processo de ligação entre essas duas áreas é mais eficiente. “As sinapses, em mulheres, ocorrem de forma mais eficiente, o que explica o homem ser mais de extremos, ou totalmente racional, ou completamente mimado.”

Um fator, muito menos comum hoje em dia, mas ainda presente, segundo a psicóloga Lecticia, é a necessidade de manter um determinado status em função de algum ganho político ou econômico. “São, por exemplo, os executivos ou as celebridades que não se separam para evitar escândalos.” Nessa mesma linha, a psicóloga Rosana Braga aponta ainda outro fator: a religião. “Para muitos, a questão religiosa pode pesar bastante”, diz, lembrando que, em casos assim, como em muitos outros, “são as crenças de cada um que os mantêm no lugar em que estão”.

RECEITA DE BOLO
O problema, admitem os entendidos, é que, em boa parte das vezes, os casais não sabem exatamente por que seguem juntos. “Mentem para si mesmos, enganam-se para não ter de encarar seus próprios medos e sua condição de amor próprio”, alerta Rosana. Para o neurocientista Brito, se o amor acabar mesmo, o melhor é o afastamento, mesmo que gere dificuldades no início. “Nesse caso, a relação se torna menos afetiva, o que é desgastante para um ou para os dois quando um deles ainda alimenta um sentimento pelo outro.” Ele mesmo faz o alerta: “Existem casais que decidem viver juntos e, com maturidade e convicção, sabem que a relação não é passional, portanto, o relacionamento é equilibrado”.

Já a psicóloga reforça que o importante é que cada um “ganhe consciência de si mesmo e descubra qual é o seu motivo para estar ali”. Segundo ela, se houver um motivo nobre, não haverá tanta frustração. “Estará se tratando de uma escolha melhor diante de outra qualquer.”

 

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