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Há dois oceanos que separam Carolina Maria de Jesus de Noémia de Sousa – autora do verso que dá título a esta matéria – e que afastam Minas Gerais de Moçambique. Mas um mesmo grito submerso nas águas turvas do colonialismo vence-os, uníssono, a cada vez que singra e que sangra pelas estrofes-vozes, pelos versos-berros, da literatura-vida dessas duas mulheres. Negras. Há também duas efemérides que as comunicam neste fevereiro de 2017: a publicação de Sangue negro no Brasil, único e imprescindível livro de Noémia de Sousa, e os 40 anos da morte de Carolina, escritora mineira e migrante, que contornou muitas cidades antes e depois de arribar à favela do Canindé, na zona norte de São Paulo. É de sua autoria Quarto de despejo: diário de uma favelada, livro em que narra a experiência de viver na periferia paulistana e que a colocou no mapa da literatura nacional, sendo publicado em cerca de 40 países, em 13 idiomas, e que desde sua publicação, em 1960, já superou a tiragem de 1 milhão de cópias. Um sucesso imediato que carimbou em Carolina a alcunha de “escritora da favela”, legitimada por sua biografia e avalizada por seu talento literário.

“Até então, tudo que se escrevia relativamente aos ‘marginais’ era feito por escritores profissionais, por representantes das classes dominantes, detentores da norma culta. O livro de Carolina surgiu como uma voz autêntica, de dentro da pobreza, com a dor dos miseráveis”, explica José Carlos Sebe Bom Meihy, professor aposentado da USP, atualmente no programa de pós-graduação da Unigranrio. No entanto, Carolina é também uma migrante vinda da pequena Sacramento, em Minas Gerais, que após muitas andanças, e só na meia-idade, foi morar na favela. “Antes de chegar a São Paulo, em 1947, ela passou por vários locais, teve várias ocupações. E mesmo depois que saiu do Canindé sua vida continuou. Com isto não se pode dizer que ela tinha afinidades com as pessoas ao seu redor. Pelo contrário, ela nunca se identificou com a maioria de seus pares de convívio naquela comunidade. É chegada a hora de propor novas visões sobre Carolina Maria de Jesus e requalificar sua experiência unicamente como favelada.”


O entendimento de Valeria Rosito vai no mesmo sentido. Para a professora de literatura brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a leitura atenta dos manuscritos não editados de Carolina mostra uma mulher forte, determinada e sempre deslocada, onde quer que estivesse. Ela era, portanto, extremamente só no vasto campo dos afetos. “Seu afastamento, ou melhor, seu orgulho por seu destacamento, sobretudo das demais mulheres, pode ser medido por uma frase célebre que registrou: ‘Enquanto as mulheres apanham feito tambor dos maridos, eu escuto valsas vienenses’. Sua mudança do Canindé foi acompanhada por apedrejamento, para se ter ideia.”
Os livros posteriores – bem como as peças, canções, contos, poemas – lutam com suas poderosas armas líricas contra o ostracismo. “Depois de estrondoso sucesso na abertura da década de 60 do século passado, seus escritos foram deixados de lado, reaparecendo nos anos 1980, já na abertura política. Nos dias de hoje, principalmente devido ao sucesso dos movimentos feministas e de valorização étnica, a importante contribuição dessa figura se impõe, inclusive pela própria biografia de mulher migrante, negra, mãe solteira, favelada”, acrescenta Bom Meihy. Para ele, não cabe mais analisar o sucesso de Carolina baseado nas poucas páginas de seus diários, que expõem apenas parcialmente sua literatura e sua vida. É preciso ir mais fundo. “Não seria exagero dizer que apenas 10% de toda vasta produção dela está publicada. Diria mesmo que o melhor ainda permanece inédito. Se publicados os textos plurais de Carolina, certamente teríamos uma revolução no entendimento da nossa literatura e das abordagens dela como personagem central de uma trama cultural que merece novos olhares.”

Como exemplo das tensões entre a vida e a obra da escritora, que lhe renderam desafetos e fama, rupturas e descomeços, está a escolha pela liberdade e pela solidão. “O que implica sustentar uma família sem a figura masculina e fora da instituição do casamento”, ressalta Valeria.

Ver a autora apenas como uma “voz da favela” – como uma catadora de papel que cavou a erudição nas latas de lixo – é tão míope quanto lê-la apenas como uma autora de diários. Ela foi mulher. Rebelde. Migrante. Autônoma. Negra. Foi novelista. Romancista. Cancioneira. Contista. Poeta. É flagrante lembrar, sublinha Valeria, que as variáveis mais comuns no processo de apagamento histórico e na invisibilidade de expressões culturais, excluídas do cânone, dos currículos e da própria memória constitutiva de um povo, são o gênero, a raça e a classe social: Carolina era mulher, negra e pobre. “O contato com essas vozes permite um processo muito mais significativo do que o de adição, porque nos obriga a reler, a rever e a nos reposicionar sobre o que julgávamos conhecer. Aprender sobre Carolina Maria de Jesus pode nos ajudar a enriquecer nossa compreensão de um Lima Barreto ou de uma Clarice Lispector, por exemplo.”


OU QUEM SABE DE UMA CERTA POETA MOÇAMBICANA
Os 46 poemas de Sangue negro, única obra de Noémia de Sousa, foram escritos entre 1948 e 1951, publicados em jornais, revistas, antologias e demais periódicos em língua portuguesa, especialmente em Moçambique, sua terra natal. Apenas em 2001 foram reunidos e publicados como livro pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Mais recentemente, a obra foi finalmente lançada no Brasil pela editora Kapulana, na coleção Vozes da África.

Noémia tinha um pai com ascendência lusitana, afro-moçambicana e goesa; sua mãe era filha de um caçador alemão com uma mulher africana da etnia ronga. Herdeira insubmissa do colonialismo, aos 5 anos já lia, incentivada pelo pai, que morreria três anos depois. Na adolescência, teve de trabalhar para ajudar na educação dos irmãos e, aos poucos, foi dando seus passos à esquerda, na literatura e na vida, e ombreando-se com outros artistas que gritavam pela independência do país, como José Craveirinha, Ruy Guerra, Cassiano Caldas, Ricardo Rangel e os irmãos Orlando e João Mendes. Com os dois últimos, por conta de poemas e textos que afrontavam frontalmente o colonialismo, foi degradada para Portugal em 1951. Pouco depois viajou para a América, onde viveu até 1972, quando foi deportada para Paris, onde continuou sua luta pela libertação de Moçambique, bem como seu trabalho como jornalista, tradutora e poeta.

Júlio Machado, professor de literaturas africanas na Universidade Federal Fluminense, conta que, quando os poemas de Noémia começaram a circular, ainda de forma clandestina, imperavam os clichês da chamada literatura colonial, ou seja, aquela que, a serviço do aparato português, criava uma imagem depreciativa do sujeito africano e servia de discurso de justificativa para a condição de subalternidade. “Noémia de Sousa foi a primeira, em solo moçambicano, a trazer para dentro do poema esses sujeitos excluídos, e sem a estereotipia colonial. Vivia-se um momento em que o posicionamento político era um imperativo. A situação do negro nas Américas, oprimido pelo racismo, a situação dos africanos, sob o jugo colonial, a situação dos operários mundo afora, tudo se torna objeto de uma mesma luta de resistência a se travar em todos os domínios, inclusive no artístico. Não por acaso, os poemas dela são contemporâneos aos movimentos neorrealistas europeus, inclusive o português, e à literatura social brasileira, tanto na poesia quanto na prosa.” No caso da situação das colônias portuguesas na África, sublinha Machado, calar-se era contribuir, por conveniência, com o colonizador, afinal, muitas outras colônias vizinhas, francesas e inglesas, já haviam alcançado a independência. “Nesse sentido, mais do que dizer que há uma comunicação entre a militância política de Noémia e sua poética, trata-se de dizer que sua poética é, ela própria, sua forma de militância política.”

Além do mérito literário de emprestar temas comuns à literatura colonial e usá-los com genialidade em prol da luta pela libertação, a escritora também conseguiu perceber uma batalha maior, que consumia muitos outros oprimidos, especialmente os descendentes da diáspora africana nas Américas. “É notável, por exemplo, a apropriação que ela faz dos spirituals norte-americanos, especialmente daqueles cujas letras tratam do cativeiro dos judeus no Egito. Noémia aproveita uma estratégia do negro norte-americano, que se apropria do texto bíblico para contestar a escravidão que lhe foi imposta, e a redimensiona, ressignificando-a para que seja lida como um discurso contra o colonialismo português em Moçambique.” Machado ressalta ainda que todos os autores africanos de língua portuguesa, e particularmente aqueles que viveram as lutas independentistas, são tributários de Noémia, em maior ou menor grau. “Mas é mais difícil responder sobre sua importância para a atual literatura moçambicana. Como a obra esteve esgotada por muito tempo, é difícil mensurar quanto é lida e conhecida hoje.”

O poeta Lucas Lahissane Silvestre, de 29 anos, de Chokwé, no centro-sul de Moçambique, pode nos tirar essa dúvida: “Leio os poemas da Noémia desde meus 9 anos, adoro declamar Súplica e buscar um cantinho silencioso para entrar em conversa com os versos dela. Lê-la é o mesmo que ler Moçambique, é ler a África”. Foram Noémia, José Craveirinha e Vinicius de Moraes os responsáveis diretos por despertar em Silvestre a veia poética – e até hoje eles são seus maiores expoentes.

A potência lírica de Noémia continua a revelar uma ensolarada esperança e a reafirmar as memórias nacionais. “A figura dela como escritora e poeta foi importantíssima na nossa história. e ainda é para mim e para outros jovens moçambicanos”, enfatiza o poeta. “Ela é uma fonte de inspiração com a qual aprendemos a transformar os sentimentos em literatura. Somos gente que percebeu que é possível criar uma literatura típica, abordando o dia a dia e usando nossas expressões de forma a valorizar e eternizar nossa cultura. Vejo a Noémia como a mãe dos poetas moçambicanos.”

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