Aguarde...
Compartilhar
A democracia é um acordo de cavalheiros e damas. Seu poder de coerção não reside no monopólio da força pelo Estado. Ao contrário, veja o exemplo recente da Espanha: ao mobilizar a Polícia Nacional e a Guarda Civil para tentar impedir fisicamente os catalães de votarem no plebiscito separatista do dia 1º de outubro passado, o primeiro-ministro Mariano Rajoy só fez perder força política, ainda que tenha vencido até o momento o braço de ferro contra o líder catalão Puigdemont ao destituir o Parlamento da comunidade autônoma e convocar novas eleições em dezembro – os desdobramentos imprevisíveis dessa história irão se desenrolar nos próximos dias. A força da democracia está paradoxalmente fincada numa frágil articulação entre liberdade e responsabilidade, em um equilíbrio delicado que, ao pressupor a maturidade e a clareza dos cidadãos sobre a importância do bem comum e da aceitação do outro, entra em choque com os instintos primitivos do egoísmo e da agressividade, embalados pelo preconceito e pela intolerância.

Volta e meia, na tumultuada história da humanidade, líderes inescrupulosos aproveitam o espaço aberto inerente às democracias para subir ao poder por intermédio delas e, em seguida, destruí-las por dentro, mantendo por um tempo a aparência, a caricatura de um regime democrático, até deixar-se desmascarar completamente, quando já conseguiram capturar para si as instituições, perverter os valores éticos e políticos, e quando já se tornou mais relevante manter as rédeas do controle autoritário do que as aparências.

Os exemplos são muitos: Adolf Hitler, Vladimir Putin, Recep Tayyip Erdogan, Hugo Chávez, Evo Morales… A fórmula foi tentada recentemente no Brasil, na Argentina e no Equador, mas não encontrou os ingredientes necessários no ecossistema de cada um desses países, fazendo os líderes populistas titubearem, recuarem e serem temporariamente apeados do governo, embora Luiz Inácio Lula da Silva, Cristina Kirchner e Rafael Correa sigam rondando o poder e contando com substancial apoio popular.

Mas a democracia é ameaçada de todos os lados, e a impaciência dos excluídos, assim como a desilusão dos que tinham mais e perderam, tem encontrado ultimamente ressonância em um populismo nacionalista, que poderia ser chamado de “direita”, se essa classificação não fosse enganosa no campo da economia: suas propostas de intervenção do Estado comungam valores centrais da tradicional “esquerda”. Melhor deixar de lado esses conceitos e partir para o conteúdo dessas visões de mundo.

O populismo nacionalista vem ganhando espaço nas Américas e na Europa, e em muitos casos ecoando fantasmas do passado que levaram a perseguições, massacres e guerras. Para entender as razões disso, e também o alcance dessa ameaça, é preciso mergulhar nos detalhes das estatísticas eleitorais para conhecer de perto o tipo de eleitor que vem sendo capturado por suas promessas e que tem se identificado com sua doutrina.


O presidente norte-americano, Donald Trump, deveu sua vitória no ano passado ao apoio de eleitores brancos sem ensino superior nos Estados de Michigan, Wisconsin, Pensilvânia e Ohio, no chamado Cinturão da Ferrugem, onde empregos industriais deram lugar a vagas no setor de serviços, com salários mais baixos e menos direitos trabalhistas — quando não ao desemprego. O discurso de Trump contra o livre-comércio e a imigração tirou esse voto do Partido Democrata, vinculado aos sindicatos que representavam esses trabalhadores. Tal deslocamento foi consumado depois que o senador Bernie Sanders, com sólidas ligações com os sindicatos, perdeu as primárias democratas para Hillary Clinton. De acordo com o Cooperative Congressional Election Study, envolvendo 50 mil entrevistados, 12% dos eleitores de Sanders migraram para Trump.

Um atlas da votação, elaborado pelo cientista político Brian Schaffner, da Universidade de Massachusetts em Amherst, mostra a importância desse deslocamento. No Michigan, 47.915 eleitores de Sanders votaram em Trump, enquanto a margem da vitória do republicano sobre Hillary foi de apenas 10.704 votos; na Pensilvânia, 117.100 eleitores de Sanders pularam para Trump, cuja vitória teve margem de 44.292; em Wisconsin, Trump atraiu 51.317 votos antes destinados a Sanders e derrotou Hillary pela diferença de 22.748.

O que o socialista Sanders e o bilionário Trump têm em comum? Ambos se apresentaram como defensores dos trabalhadores e contrários à globalização e ao livre-comércio. O estudo mostrou um componente racial nessas preferências: cerca de metade dos eleitores que tinham Sanders como primeira opção e depois votaram em Trump discordou, na pesquisa, da afirmação de que “brancos usufruem de vantagens”.

A questão racial nunca deve ser desprezada nos Estados Unidos – e provavelmente em parte alguma –, mas a qualidade de vida é o fator determinante. A revista inglesa The Economist cruzou os mapas eleitorais com os dados de saúde pública compilados pelo Institute for Health Metrics and Evaluation, da Universidade de Washington. A combinação dos índices de expectativa de vida, prevalência de obesidade, diabetes, alcoolismo e sedentarismo coincide com 43% da votação a mais que Trump teve em relação ao candidato republicano em 2012, Mitt Romney, em cada condado. Já a participação de brancos sem ensino superior responde por 41%.

Isso quer dizer que a qualidade de vida foi um fator um pouco mais importante do que a raça e o nível de instrução – embora as categorias se sobreponham. Em outras palavras: existem comunidades cujos operários brancos estão literalmente morrendo de problemas de saúde associados às perdas causadas pelo fim do emprego industrial de alta qualidade antes oferecido nessas regiões.

A The Economist dá exemplos contundentes da importância desse fator. No Condado de Knox, Estado de Ohio, Trump teve 14 pontos percentuais a mais do que Romney. A 160 quilômetros dali, no condado de Jefferson, o crescimento de Trump foi de 30 pontos. A fatia de brancos sem diploma em Knox é um pouco maior que em Jefferson: 82% a 79%. Entretanto, os moradores de Knox são bem mais saudáveis que os de Jefferson: 8% menos diabéticos, 30% menos alcoólatras e 21% menos sedentários.

Na França, a candidata ultranacionalista Marine Le Pen obteve 21% dos votos no primeiro turno e 34% no segundo. Para entender as motivações específicas do eleitor de Le Pen, é melhor examinar o primeiro turno, quando havia múltiplas escolhas e se votou por convicção. No segundo, houve muito voto útil em favor de um e de outro candidato, o que não denota necessariamente uma convicção política.

Pesquisa do Instituto Ipsos antes do primeiro turno apontou que a grande motivação dos eleitores de Le Pen foi o desejo de mudança, citado por 65% deles. O mesmo aconteceu com o vitorioso Emmanuel Macron, de centro: 64%. Mas qual mudança? Dos eleitores de Le Pen, 69% citaram a imigração como foco de sua preocupação; 46%, o terrorismo; 42%, a insegurança. Os eleitores de Macron tinham prioridades mais dispersas: 32% citaram o desemprego; 30%, o poder aquisitivo; 25%, as questões europeias (como a livre circulação de pessoas, que Macron prometeu controlar melhor); 24%, o sistema de saúde.

Como já havia acontecido em eleições passadas, Le Pen, que prometeu acabar com a imigração, sair da Zona do Euro e garantir e ampliar os benefícios dos aposentados, recebeu mais votos nos lugares com menos imigrantes. Inversamente, Macron, que falou apenas em controlar melhor as fronteiras para evitar a entrada de terroristas, teve mais apoio nos distritos com mais imigrantes. Os votos em Le Pen se concentraram na zona rural, enquanto que oito de cada dez imigrantes vivem nos grandes centros urbanos. Nas 40 maiores cidades do país, a participação de imigrantes na população é 6% maior que a média nacional, e nelas Le Pen recebeu 26% dos votos, ante 34% no conjunto do país. A população de Paris, por exemplo, é composta por 18% de imigrantes legais e concedeu 90% de seus votos a Macron no segundo turno.

Isso quer dizer que o contato com os imigrantes desmitifica a tese segundo a qual eles roubam empregos e sobrecarregam os serviços públicos. Ao contrário, imigrantes pagam impostos, ativam a economia e ampliam a parcela da população mais jovem, que sustenta os aposentados.

Nas eleições de setembro último, parte dos votos recebidos pelo partido ultranacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD) proveio de eleitores que antes não votavam — em parte por serem jovens, em parte por desinteresse nos partidos convencionais. A legenda recebeu 1,2 milhão de votos de eleitores pela primeira vez, 1 milhão de antigos votantes da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, e 500 mil do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda. A CDU obteve 33% dos votos (8,5% menos do que nas últimas eleições, em 2013); o SPD, 20,5% (5,2% menos); e a AfD, 12,6% (7,9% mais), que lhe garantiram pela primeira vez representação no Bundestag, o parlamento federal. O partido já estava presente em 13 dos 16 parlamentos estaduais.

O voto para a AfD se concentrou na antiga Alemanha Oriental, cujos trabalhadores têm enfrentado mais dificuldades de se adaptar às mudanças no mercado de trabalho ocasionadas pela evolução tecnológica. A AfD, que defende o bloqueio da imigração, o banimento de mesquitas e véus islâmicos, a saída do euro e gastos sociais mais generosos (para os cidadãos alemães, claro), obteve 11% dos votos no lado ocidental e 21,5% no oriental. O padrão já tinha sido observado nas eleições estaduais.

Pesquisa do instituto Infratest Dimap mostrou que 89% dos eleitores da AfD consideram que a política de “braços abertos” aos imigrantes da chanceler Angela Merkel (CDU) ignorou “as preocupações do povo”; 85% querem fronteiras nacionais mais protegidas; 82% acham que 12 anos de Merkel foram suficientes.

A maior votação da AfD se concentrou entre os eleitores com idades de 30 a 44 anos, para os quais a experiência nazista é algo distante; e a menor, na faixa dos mais velhos, acima de 60 anos. Ainda de acordo com a sondagem, 60% dos eleitores da AfD votaram “contra todos os outros partidos” e apenas 34% por compartilhar o programa do grupo ultranacionalista.


No Brasil, as pesquisas indicam uma sólida liderança de Lula e um segundo lugar, tanto no primeiro quanto no segundo turno, para o deputado ultranacionalista Jair Bolsonaro, geralmente em empate técnico com Marina Silva. Somadas, as intenções de votos em Lula e Bolsonaro se aproximam da metade do eleitorado. Ambos defendem teses nacional-desenvolvimentistas, com um Estado forte e intervencionista. O restante dos votos está disperso entre candidatos com tendências mais ou menos liberais. Na pesquisa do Datafolha publicada no dia 2 de outubro, Lula recebe maior apoio dos menos escolarizados, que estudaram até o ensino fundamental (49% das intenções de voto), dos mais pobres (46%) e da Região Nordeste (57%).

Entre os que estudaram até o ensino superior, Lula (21%) perde ligeiramente para Bolsonaro (24%). O deputado ultranacionalista tem bastante apoio dos mais jovens (24%), que não têm memória da ditadura militar por ele defendida, embora Lula seja o campeão desse contingente (38%). Bolsonaro é líder isolado nos segmentos de renda mensal mais alta (29% na faixa de cinco a dez salários, contra 17% de Lula, e 30% entre quem tem renda superior a dez salários, ante 19% para o petista).

Como acontece em geral com os populistas de direita, Bolsonaro não tem um programa claro e coerente. Ele afasta discussões sobre economia confessando que não entende do assunto (os militares também não, defende-se ele) e se desmente com frequência sobre a maioria dos temas. Seus eleitores são incentivados, em parte, pelo antipetismo, pela indignação com a corrupção e pela desilusão com a democracia; em parte, pela homofobia e o machismo; e, finalmente, pelas arraigadas crenças nacional-desenvolvimentistas no país, também professadas pelo PT.

A adesão doutrinária às teses extremistas de Trump, Le Pen, AfD e Bolsonaro é inegável. Mas ela só pode ser entendida no contexto das desilusões políticas e econômicas, que têm diferentes causas, em cada um desses países. Para conter seu crescimento, é preciso adotar políticas públicas que indiquem soluções para esses problemas. Não há mais espaço para a indiferença.
ROLAR PARA O TOPO